Era um belo bairro burguês com suas mansões de elites e ruas higienizadas. Dentre as nuvens cinzas o sol finalmente aparecia. Eram mais ou menos 4 horas da tarde e ele estava em pé diante do alto portão feito de ferro entrelaçado. Vestido num terno cor cinza, de camisa e sem gravata, os longos cabelos acinzentados estavam presos abaixo da nuca e os longos fios alcançavam até o meio das costas.Sua altura e porte, a sua aparência serena lhe davam ares de um anjo.
Naquela tarde depois de surgir radiante o sol aparecia e se escondia entre as nuvens cinzentas. Quando os seus raios transpassavam a espessa barreira cor de chumbo a sensação de calor e abafamento só aumentava. Quando os raios surgiam vinham com a força de algo que rebenta a represa que o contém e transborda de uma só vez. O calor fazia com que a água da chuva que caíra anteriormente e estava sobre as coisas ou em pequenas gotas ou ainda empoçada evaporarem rapidamente fazendo a sensação de calor e falta de ar ficarem muito piores.Entretanto ele impassível estava sem uma gota de suor ou aparentando qualquer desconforto com o clima.
Lá parado aguardou alguns segundos como se estivesse observando o movimento da rua ou aguardando que o portão se abrisse.Então caminhou até passar pelo portão como um fantasma reaparecendo já junto ao jardim quase sem flores. Eram os primeiros dias que anunciavam a primavera que vinha depois de um inverno muito frio e prolongado até poucas semanas atrás. E como o inverno se prolongou além de seu tempo tanto as árvores como os arbustos tinham poucas folhas que tentavam ainda crescer verdes junto com algumas folhas em tons de marrom e pastel que estavam lá apenas pelo acaso.
Sem demonstrar qualquer interesse com o que acontecia ao redor continuava seu caminho e mais uns poucos segundos chegou ao pátio defronte a casa, então, defronte a porta assim como no portão passou alcançando o vestíbulo. Lá dentro havia um portal dourado sobre o átrio e ele parou entre as colunas brancas olhou para cima observou os ábacos também dourados e para ele pareceram tão belos como os das colunas brancas decoradas do teatro nacional de Sofia. Observou a abóboda de claustro detalhada em gesso e mármore Fiorentino e mais lembranças vieram ao pensamento.
Mais uns passos e chegou à antessala. Parado bem ao centro, passou a olhar ao seu redor e observar o que havia por perto. Com o olhar mais atento para as paredes laterais viu que elas eram diferentes recobertas por um papel de parede onde estavam impressas cenas medievais que pareciam afrescos e pinturas dos antigos palácios e igrejas medievais. Desenhos de cenas cotidianas daquela época em papel gasto e escurecido pelo tempo. Reter-se ali lhe pareceu agradável, então, começou a observar senhores e damas, servos, soldados, cenas de mártires com anjos e santos, freiras, monges e monastérios. Lembranças ainda vivas de um tempo em que as coisas eram mais simples e lembrava-se da topografia do além antes de Dante e ao distrair-se estava adiando o porquê de estar ali.
Deu uma meia volta e procurou pela escada.
Pelos vitrais a luz difusa do dia que ficou nublado penetrava o ambiente tornando os objetos, o ambiente e as paredes mais escurecidos e pesados. O relógio marca ainda 16 horas enquanto sobe pela escada para chegar ao andar superior da casa. Dos degraus, balaústres da escada e dos móveis exalavam agradáveis fragrâncias que lembravam o cedro libanês que quando cortado no campo pouco antes do verão espalhavam o perfume de sua seiva que logo que invadiam as narinas, caricias formaram-se em suas memórias.
Ao chegar ao topo da escada parou diante do quadro de uma bela dama de faces pálidas e cabelos dourados, posta num belo vestido verde aveludado. Realmente neste dia o caráter solene de seu trabalho e que sempre era desprovido de detalhes e marcado pela sua falta de intimidade com o local ganhava uma nuance menos automática. Seu trabalho era apenas levar consigo aqueles que o encontravam. Entretanto neste dia parecia protelar sua chegada ao cômodo de destino. No corredor abriu e olhou dentro dos outros quartos procurando conhecer o lugar. Lentamente nesse passo chegou ao final do corredor e cantarolou uma oração romana muito antiga:
*- Ut suscipijubeas animam famulituiillius per manus sanctorum angelorum.
Assim chegou onde deveria chegar e no momento certo ele estava lá. Sobre uma tombada poltrona revestida por um tecido vermelho encarnado quase reluzente, o corpo pendurado, o pescoço roxo as faces brancas e a corda amarrada ao belo e trabalhado chandelier estilo vitoriano.
*(PARA QUE ORDENES RECEBER A ALMA DESTE TEU SERVO PELAS MÃOS DOS SANTOS ANJOS.) SACRAMENTÁRIO DE SÃO GELÁSIO I (PAPA DE 492 A 496)