10 de agosto de 2010

Quase sem querer




Ele falou tranquilamente num tom doce:
- Já vou. Tenho de acordar cedo...
O ambiente tornou-se silencioso. A frase ficou oscilante no ar , vazia de sentidos.
Sentiu-se atoleimado e enrubecerão as faces. Como solução levantou rápido e começou a vestir-se.
Ela falou uma frase qualquer que ele mais tarde não sabia se não ouviu ou fingiu que não ouviu. Naquele momento os segundos iam acumulando-se e pareciam horas. Quando finalmente livrou-se de vestir a roupa e por fim calçou os sapatos, levantou, enfiou as mãos no bolso e jogou o dinheiro que devia e mais algum.
Ao chegar na porta, ainda  antes de sair, observou a cama desarrumada e o sorriso frio da prostituta que já ia levantando-se e pegando o dinheiro.

Imagem by Andrew Wyeth. Helga.1978.

5 de agosto de 2010

          Naquela semana a chuva incessante tornava os dias sombrios e as pessoas na rua pareciam fantasmas que circulam apressados escondendo-se debaixo de suas capas de chuva, suas jaquetas, seus gorros, seus guarda-chuvas. Na verdade fantasmas cinza e sem face. Olhando da janela era assim que Helena sentia-se - um fantasma cinza que da janela observava todos os outros. Trancada dentro do seu quarto era uma personagem muda com um sorriso cético entre os lábios. Sentia o tempo nas veias correndo, sentia que o tempo passava na sua carne. Células reconstruindo-se, memórias remontando-se fazendo aumentar o peso sobre seus ombros que ganhava o nome de dias passados. Melancolizava lembranças de dias felizes e iluminados pelo sol, dias que existiram dentro dela. Para tentar alcançá-los novamente, então, fecha os olhos longamente tentando imaginar o que havia naquela rua. E subitamente se dá conta que a memória pode ser tal como o vento que passa vivo e intermitente, que leva e trás qualquer coisa, porem não as guarda .
        E, além do mais, é necessário convencer-se de que lembranças nunca passam de rosas que não tem mais olor, de lágrimas que não tem para onde correr e nem tem mais sabores. São anjos desbotados de tristeza ou felicidade, pinturas numa parede de caverna em que os significados de hoje podem e nem devem ser os que eram em seu tempo. Helena insinua respirar do passado precipitando-se sobre ele com todas as forças , o que ás vezes faz bem para as dores, ajuda a guiar-se na escuridão que vai dissipando-se logo à frente- o futuro. Mesmo que ela saiba que tudo vai acabar sendo o que é. E ainda é outono.

22 de julho de 2010

Abrindo o portão azul de casa ele rompeu em passos macios sobre o gramado o silêncio do orvalho e o seu próprio silêncio. 
Flutuava mansamente o cheiro do asfalto ainda molhado da noite que serenou. 
Os bueiros assopravam nevoeiros de vapor para cima e na luz amarela do sol que surgia essa a fumaça ia e parecendo confusa brilhava . As sombras ganham força sobre a calçada e sobre o gramado ao lado dos passos.
Foi descendo a rua para chegar até um outro portão. Os pensamentos fugidios e a imagem querendo sair da própria boca. Boca que vinha já tomada pelo coração que insistente disparava, como a querer sair correndo na frente. 
Repentinamente se deu conta : Meu Deus, já fez um mês. 
Ganhava força o medo, os pés então temiam o chão a cada espaço tomado.
Acordei e sai.
E esta voz maldita na minha frente repetindo: - Sinto muito, ela não mora mais aqui.

21 de julho de 2010

Mulher à mesa de café, Tambourin,1887- Van Gogh.













Ela esperava que ele tivesse uma atitude e ele refusava no momento certo , ela não diria nada , afinal como ela dizia: homem deve atitude de homem. O estranho é que ele não era tímido e também não era ousado.
Que cara irritante, dizia ela consigo.Pra que esperar. Ainda assim ela esperava. E sentia-se entre decepcionada e lisonjeada, muito mais este segundo sem perder para o primeiro.
Acendia mais um cigarro . Bebia mais um café,pensava
mais uma besteira qualquer...

27 de junho de 2010

Ando meio...


Enquanto estava vindo do aeroporto, dentro do táxi, pensava que talvez desta vez ao abrir a porta de casa iria encontrar aquele sentimento antigo , aquela alegria boba de quando estamos amando e estar apaixonado não é uma frase, ou palavras desconexas expelidas ao vento. Nada veio. Era tudo um fio pequeno de remorso pelo constante sexo fora do casamento.
Só as malas da viagem com roupa suja e o presente duty-free de outras viagens.Beijo, olá e abraço. Banho e sexo, banho. Nada mais.Nada mais para dar. Além do estado tedioso, spleen,que na verdade apenas demarcava aquela sua passagem insignificante pela vida. Meia idade , meio sonhador, meio careca, meio gordo ,meia ereção, classe média . O protótipo de um feliz suicida pensava ela quando deitou.

26 de maio de 2010

Eu senti que nada poderia ser diferente, ele não voltaria. Isto era fácil de entender olhando para mim no espelho. Estas rugas como não notei que estavam aqui, Ah!Como estive relaxada.Um casamento, uma vida inteira em tão pouco tempo, perdida.Como pude me calar em si mesma, estive ensimesmada, estive longe de ser quem eu sou por um período que agora me faz falta. São as mãos que estão enrugando , os olhos que estão ficando profundos, os peitos de macios para murchos.Ainda bem que ele foi embora, ou eu pus para fora , não sei ao certo, e pouco importará. Sozinha talvez eu possa, sendo a mulher que deixei de ser, eu encontre uma vida nova e mais minha, assim como estou agora de frente com este espelho.Uma vida para refletir quem eu sou e quem fui e quem quero ser.
Ainda bem que ele saiu de casa, ainda bem que ele se foi.Sem voltar.

10 de maio de 2010

Enquanto ela falava eu imaginava como deveria ser ela , como poder sentir-se desamarrado da possibilidade de morrer naquele dia. Já fui assim, eu disse.Ela esfumaçou outra pedra daquelas 10 ou 12.Voce não quer?Pra quê?Beijava-lhe a parte de dentro das coxas e conseguia tirar-lhe um ou outro espasmo. Estava me divertindo.Acabou de fumar e me agarrava tão forte de modo que eu não podia sentir se era para proteger-se ou ser protegida, é só uma pira dizia ela.

2 de maio de 2010

De inverno em inverno aquela mulher caminhava à procura de se aquecer , mas, a cada homem com quem ela transava, a cada novo estranho na cama o frio aumentava. E dobrando outra esquina outro encontro sem que o marido soubesse.Depois em casa os olhos marejados, distantes, e frases dispostas a comunicar o nada.Ele já notara o frio que emanava dela,e não se importou muito ,depois de um certo tempo de casados o silêncio fazia parte do amor que ele sentia por ela, introspectivo pensava que ela também o ficara.
E quando um dia um daqueles casos se tornou mais quente que o normal , ele estranhou os sorrisos e o estado nervoso dela em casa, mas, depois de um certo tempo de casados é normal que ambos mudem de tempos em tempos, são os hormônios, disse ela.

27 de abril de 2010

Para os que estão em casa





Os meus órgãos, meus genes, cabelos, os dedos,as unhas, os pelos,  minha bondade , minha caridade, está tudo à míngua.
Pisam cinzas de pétalas e seguem um descompasso constante, porque assim como minha singularíssima pessoa: não me servem.
Estes meus olhos tão negros e escuros não me servem: Afinal não posso ver Deus.
Esta boca ainda me é mais inútil: não consegue articular nem mentiras nem verdades absolutas.
E dentro do meu íntimo, tão rudimentar, carrego chagas fendidas na carne da alma e sendo corajoso estando aqui minha vida duvida que exista uma alma: e de que me serve isto?

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23 de abril de 2010

Em meu infantil e egocentrico sonho, nunca perguntei a única pergunta que tinha de ser feita: - E ela,teria escolhas para fazer? Dentro do caos ao qual me lancei questionar seria ensurdecedor e emudecedor de um amor que nasceu sem culpas, porém, era ele culpado por tudo.

Souhaiter Des Choses Impossibles

Foi o leve sussurar de seu rosto, naqueles momentos que com a ponta de meus dedos eu espantava os cabelos dos seus lábios, que suavemente beijou meus pensamentos.
Assim você trouxe para mim novos desejos e tive de escolher entre o homem que eu costumava ser e o homem que eu desejaria ser.E nesta frágil esperança pensei poder desejar coisas impossíveis. Mas, agora, vejo friamente que todos os meus desejos estão muito longe...

16 de abril de 2010

Personalstorm

I


Ando devagar, mas, ainda tenho muita pressa, para mim tudo ainda é impreciso e necessito de compor uma nova história e talvez ser feliz. Ainda não cheguei a compreender que não há nada mais preciso que o tempo, o qual, em si, é uma receita. E nos foi dado tal qual uma manipulação homeopatica que invariavelmente deve ser executada com paciência e para ser usada em pequenas doses, que são horas e dias. Assim para haver seu efeito deve ser esperado um longo período, pois uma cura lenta torna-se efetiva .

II
Ainda tento compreender as coisas que dizemos sem sentido e aceitar esse caminho sempre na mesma direção á frente e á frente nada mais.
III
As coisas que tento alcançar não são mais que sonhos e as realizações não mais que pequenos desejos que empilharam-se para formar algo que não chega a me causar algum orgulho. Gosto de saber que quando sento no pé da minha cama me vem aos olhos muito mais lágrimas do que sorrisos à boca , porque ainda assim me sinto feliz e a grande aventura é continuar.