21 de janeiro de 2008

MALINA

Resolveu vestir-se.
Acabou de vestir-se com lentidão.
Pegou rapidamente o pagamento de sobre a cama. Pegou o dinheiro para livrar-se de um embaraço tolo que estranhamente lhe invadiu por alguns segundos. Semelhante a alguém que esconde de uma visita inesperada algo que esqueceu sobre a cama e que causaria vergonha. Já de pé, um pouco pálida ainda, guardou jogando num dos compartimentos da bolsa e saiu pela porta do quarto. Caminhava no corredor tentando conter os olhos quase lacrimejantes. No peito ardia um misto de dor e satisfação. Seguia em direção a saída, precisava então maquiar outro sorriso nos lábios.
Já era quase manhã e tinha voltado para boate, tendo passado aquele sentimento de fio de culpa, sorria perto da entrada. Ali ouvia o taxista que todas as manhãs puxava conversa, talvez para ser simpático e espantar o último ataque do sono, ou quem sabe receber de volta a simpatia com um afago antes de ir para casa. Nunca o ouvira direito, e se chegava a ter alguma atenção ao que ele dizia, lhe pareciam coisas repetitivas e imbecis. Mas, naquela manhã, ela o ouvia sorrindo, pensando em levá-lo até onde ele gostaria de ir. Ouvia atentamente a história do corpo decapitado e sem a genitália, encontrado dentro de um quartinho na Treze de Maio. Então sorriu lânguida, enquanto comprimia as mãos por causa do frio que sempre faz quando amanhece e para esconder seu segredo sob as unhas carmim.