16 de outubro de 2012

(Esta é a terra morta.) T. S. Elliot – “Os homens ocos - Fragmento lll”

Era um belo bairro burguês com suas mansões de elites e ruas higienizadas. Dentre as nuvens cinzas o sol finalmente aparecia. Eram mais ou menos 4 horas da tarde  e ele estava em pé diante do alto portão feito de ferro entrelaçado. Vestido num terno cor cinza, de camisa e sem gravata, os longos cabelos acinzentados estavam presos abaixo da nuca e os longos fios alcançavam até o meio das costas.Sua altura e porte, a sua aparência serena lhe davam ares de um anjo.
Naquela tarde depois de surgir radiante o sol aparecia e se escondia entre as nuvens cinzentas. Quando os seus raios transpassavam a espessa barreira cor de chumbo a sensação de calor e abafamento só aumentava. Quando os raios surgiam vinham com a força de algo que rebenta a represa que o contém e transborda de uma só vez. O calor fazia com que a água da chuva que caíra anteriormente e estava sobre as coisas ou em pequenas gotas ou ainda empoçada evaporarem rapidamente fazendo a sensação de calor e falta de ar ficarem muito piores.Entretanto ele impassível estava sem uma gota de suor  ou aparentando qualquer desconforto com o clima.
 Lá parado aguardou alguns segundos como se estivesse observando o movimento da rua ou aguardando que o portão se abrisse.Então caminhou até passar pelo portão como um fantasma reaparecendo já junto ao jardim quase sem flores. Eram os primeiros dias que anunciavam a primavera que vinha depois de um inverno muito frio e prolongado até poucas semanas atrás. E como o inverno se prolongou além de seu tempo tanto as árvores como os arbustos tinham poucas folhas que tentavam ainda crescer verdes junto com algumas folhas em tons de marrom e pastel que estavam lá apenas pelo acaso.
Sem demonstrar qualquer interesse com o que acontecia ao redor continuava seu caminho e mais uns poucos segundos chegou ao pátio defronte a casa, então, defronte a porta assim como no portão passou alcançando o vestíbulo. Lá dentro havia um portal dourado sobre o átrio e ele parou entre as colunas brancas olhou para cima observou os ábacos também dourados e para ele pareceram tão belos como os das colunas brancas decoradas do teatro nacional de Sofia. Observou a abóboda de claustro detalhada em gesso e mármore Fiorentino e mais lembranças vieram ao pensamento. Mais uns passos e chegou à antessala. Parado bem ao centro, passou a olhar ao seu redor e observar o que havia por perto. Com o olhar mais atento para as paredes laterais viu que elas eram diferentes recobertas por um papel de parede onde estavam impressas cenas medievais que pareciam afrescos e pinturas dos antigos palácios e igrejas medievais. Desenhos de cenas cotidianas daquela época em papel gasto e escurecido pelo tempo. Reter-se ali lhe pareceu agradável, então, começou a observar senhores e damas, servos, soldados, cenas de mártires com anjos e santos, freiras, monges e monastérios. Lembranças ainda vivas de um tempo em que as coisas eram mais simples e lembrava-se da topografia do além antes de Dante e ao distrair-se estava adiando o porquê de estar ali. Deu uma meia volta e procurou pela escada. Pelos vitrais a luz difusa do dia que ficou nublado penetrava o ambiente tornando os objetos, o ambiente e as paredes mais escurecidos e pesados. O relógio marca ainda 16 horas enquanto sobe pela escada para chegar ao andar superior da casa. Dos degraus, balaústres da escada e dos móveis exalavam agradáveis fragrâncias que lembravam o cedro libanês que quando cortado no campo pouco antes do verão espalhavam o perfume de sua seiva que logo que invadiam as narinas, caricias formaram-se em suas memórias.
 Ao chegar ao topo da escada parou diante do quadro de uma bela dama de faces pálidas e cabelos dourados, posta num belo vestido verde aveludado. Realmente neste dia o caráter solene de seu trabalho e que sempre era desprovido de detalhes e marcado pela sua falta de intimidade com o local ganhava uma nuance menos automática. Seu trabalho era apenas levar consigo aqueles que o encontravam. Entretanto neste dia parecia protelar sua chegada ao cômodo de destino. No corredor abriu e olhou dentro dos outros quartos procurando conhecer o lugar. Lentamente nesse passo chegou ao final do corredor e cantarolou uma oração romana muito antiga: *- Ut suscipijubeas animam famulituiillius per manus sanctorum angelorum. Assim chegou onde deveria chegar e no momento certo ele estava lá. Sobre uma tombada poltrona revestida por um tecido vermelho encarnado quase reluzente, o corpo pendurado, o  pescoço roxo as faces brancas e a corda amarrada ao belo e trabalhado chandelier estilo vitoriano.
 *(PARA QUE ORDENES RECEBER A ALMA DESTE TEU SERVO PELAS MÃOS DOS SANTOS ANJOS.) SACRAMENTÁRIO DE SÃO GELÁSIO I (PAPA DE 492 A 496)







Vendo as flores da janela. Sem sol. 
Vendo minhas lágrimas. E todo o cinza. 
Vendo meus sorrisos sem sentido. 
Vendo a beleza dada pelos olhos diante desse espelho sem reflexo.
Vendo sonhos irrealizáveis.
E vendo tudo que não vivi.
Assim a certeza de que não perdi nada nesta vida.

26 de abril de 2012

O bibliofilo

As vezes pensava na mãe que pagava os seus estudos e ele e sabia que devia para ela muito mais que afeto e dinheiro.A sua mãe que fora abandonada ainda grávida pelo namorado. Namorado o qual  ela acreditou ser o seu destino para felicidade e o destino tinha mulher feliz , grávida e dois filhos.
Não foi fácil para ela, sem companheiro e não dois , apenas um: o filho. Naqueles tempos ter filho solteira era sentença de desprezo da cidade toda, tanto para um quanto para outro - mãe e filho.
E para mãe dele com aquela experiência passou dali em diante trazer dentro de si profunda descrença e nojo total à doçura masculina. Ainda mais que devido a falta de ofícios mais lucrativos na cidadezinha e pela necessidade, terminou prostituindo-se lá na casa de Maria Gertrudes, logo antes dele nascer.
De fato isso nunca o incomodou, porém,nenhuma saudade de casa. 
Afinal de contas saber a origem do seu conforto não era um conforto e nem ao menos sua prioridade.
 A prioridade era todos os dias sair e caminhar depois das aulas.Ele pesquisava, observava e entrava em qualquer lugar onde estivessem. Ou, nas bibliotecas públicas, ou, nas casas que visitava.
Entrava  e vagarosamente antes mesmo de um bom dia ou boa tarde com os olhos observava nas prateleiras das estantes, mesmo sobre algum móvel aqueles objetos que fascinavam seu espírito. 
Escolhia um dos que via e o acariciava, em cada lombada passava suavemente os dedos, sentia a textura de cada capa e contra capa. Cheirava suavemente o seu interior e cuidadosamente arranhava uma ou duas páginas e então perguntava-se qual era o título , o nome, daquela coisa em suas mãos. Por vezes levava o livro contra o peito e depois esticando os braços o encarava frente a frente para ver o nome do autor como se o olhasse diretamente nos olhos.
Não compreendia as sua atitudes em relação aos livros, mas compreendia que aquele ritual era quase misticismo , era libertário de alguma coisa. Muitas vezes ansiava fugir desse hábito, contudo sentia-se impotente diante daqueles seres. 
Era como na infância  que ele tentava correr por sobre os trilhos com muita atenção e ainda assim escorregava e caia. Disparava um palavrão silencioso dentro de sua cabeça. 
Muitas vezes escondia os livros dentro da bolsa ou do casaco e roubava-os.Depois sozinho deleitava-se revirando as páginas e arranhando uma a uma nervosamente, calmamente, inebriado e depois de passar algum tempo com ele e já sem escrúpulos destruía aquele objeto em suas mãos logo depois do primeiro capitulo.

Sonho Adão




Eu quero alcançar o sentimento com as mãos. 
Eu quero tocar a pele nua e desgastada dos sentimentos com meus dedos. 
Com meus sentidos vou buscar tocar um íntimo que é intangível... 
E o mundo me diz que não posso, os meus olhos dizem que não posso, meu corpo diz que não alcanço a linha do horizonte. 
Mas, meu espírito, esse desobediente vilão da minha vida, diz que nada pode ser impossível e que não existem coisas intangíveis esquecendo-se que ele mesmo é intangível. 
Vá ser feliz. Diz ele. Se eu pudesse. Respondo.

18 de abril de 2012

Adeus todos meus outros amores!
Estou partindo agora. Eu estou indo sem fim e sem demora, encontrar esse novíssimo amor que com suas amarras aporta. Nada mais me impede meus antigos amores, nada mais me cerca. Estou indo embora. Na busca da santa liberdade dos braços dela, na divina algema desse cárcere que me aquece agora e que me recebe em suas divinas mãos e no seu corpo de carne e sangue. Pois, sim, não mais voltarei para vocês meus antigos amores e suas galés, nem pensar em sentir alguma outra vez suas presenças de mármore branquíssimo e frio, frias mãos e seus frios lábios guardados na memória. Assim renova-se, assim ela diz: Serei tua casa nova. E habitaras o meu ventre e a minha boca, nos meus seios terás o descanso e a morada para tua alma fatigada. Digam que fiquei louco, digam que me escondo da dor, que o frio que sinto é do meu coração. Mas, ah! Meus antigos amores ninguém os ouve além de mim....

19 de novembro de 2011


Promessas
Diga para mim que vai me envolver com suas pernas e prender-me junto ao seu sexo. Diga que vai me fazer render-se derrotado nas carícias de suas mãos e dos seus lábios... Diga que seus lábios vão me deixar preso no vício de beijá-los, faça isso prometendo. Fale que seu corpo será meu abrigo. Fale. Falarei para mim que as palavras de tua boca serão a perdição.
Sussurre com sua pele palavras impronunciáveis que só meu corpo compreenderá. Narre para mim junto de meus ouvidos todas as palavras quando fizermos amor e todos nossos atos, para que crie a prisão sem muros mais perfeita. Conte para mim seus sentimentos e todos seus desejos, e, falo sério, preciso ouvi-los de tua boca junto da minha boca enquanto ainda estiver ofegante e olhando no fundo dos meus olhos. E não procure palavras, não me deixe procurar palavras deixe que quando estivermos sozinhos todo o resto fale por nós. Bocas, lábios, mãos pés, dedos, cabelos, saliva, suor, unhas, olhos, ouvidos, em seus ritmos deslizando-se entre nossos corpos. Nunca deixe de ser minha. Nunca me deixe não ser seu. Faça essa promessa quando você vier a existir.


(Imagem: http://www.nuribilgeceylan.com/photography/earlyphotographs3.php?sid=3 )

1 de outubro de 2011



Atirando através de mim
Aquele louco de olhos fundos e escarras na face
Lá de dentro do espelho ele me olha, lá de dentro
Eu recolho meu olhar, eu escondo minhas faces
fecho meus braços sobre meu peito.
E desse modo vou para cama, sobreposto quase sem vida lá fora.

2 de setembro de 2011

Ancestralidades







Nem meio nem inteiro. 
Sou mesmo pedaços de alguns que já se foram.

19 de agosto de 2011

Aquela puta...





Ai, que saudade daquela puta!
Daquelas noites de lua, daquele gemido fingido de prazer.
Ai, que saudades daquela puta e de seu beijo, falso e sensível
como as dores das noites e a falácia dos mendigos.
Saudade daquela puta desfilando nua no quarto, fingindo vestir uma nudez que não era dela, fantasiando ser pudenda. Nudez de mulher direita num corpo de espírito canhoto.
Saudades daquela puta vestindo lentamente a roupa fazendo de conta que não me via lá imerso em mim mesmo. Saudades daquela puta me olhando pelo espelho e pegando lentamente só o meu dinheiro.

4 de agosto de 2011

Hoje mistificando miríficas mentiras o diabo me visitou e tomou um conhaque, muito seriamente comentamos sobre os porquês das verdades.
-Verdades, meu caro, convencem somente por convenções.Disse ele entre um gole e outro.E convencer alguém do que ele acredita mesmo sem saber é simples, enganar alguém que quer ser enganado é um exercício de prazer pequeno.Por exemplo, eu sou o diabo ,meu amigo,e nem precisaria existir, mas todas as crenças levam a ordenar lados, a fé construiu minha existência.Sou grato a Deus por isso.
-Aceitar verdades ainda é pior que criá-las, não acha?Perguntei.
-Acenda seu charuto trague com força e solte com leveza, assim o sabor prolonga-se.Assenti com a cabeça e fui soltando a fumaça longamente.
Em meio a fumaça do charuto ele dizia:
-O homem cria coisas indiscutivelmente boas e abusa delas e culpam a mim pelos vícios.
-Mas aceitar verdades não é pior que crià-las?Perguntei.
-Depende de qual verdade tratamos e criamos para nós mesmos.Depende do lugar em que se está e depende do outro . O desejo de portar verdade é uma cisão perigosa entre o Eu e o outro. Vejo o caso no qual me colocaram junto à Deus, ambos fomos escolhidos para sermos maníqueistas.Quando na verdade somos a demanda de identificação dos sujeitos. O retorno de uma imagem do outro em cisão.

19 de maio de 2011

Sem título

A sua boca me procurando no escuro, o seu olhar pelo espelho, já não parecem tão importantes. Aceitar, conviver, amar, irremediavelmente não parecem coisas importantes.
Deitado, sentado, em pé, tudo é desconforto.
Ouvir você, ouvir as pessoas é extenuante. Ao mesmo tempo recebo todos por um amor. Amor que não sinto e não vejo desde muito tempo.
Vivendo um tempo que nunca chega e nunca passa, um presente defectivo e subjuntivo, indicativo de um tumultuado vazio.
E quando penso em alguma coisa: quantas palavras ainda nos restam, quantos tracejos para escrever ou para rabiscar na linha da vida, quantos gracejos para serem feitos na ânsia de sermos queridos, lançados na incerteza, destinados ao estrangulamento que é a própria vida.
Deixe-me quero descansar.

9 de fevereiro de 2011

Talvez faça uns três anos que eles estão morando juntos, e até bem pouco tempo era muito bom para ambos. A alegria os atingira como um trem e superaram um começo como todo mundo. E assim como todo mundo o conforto de casa e do amor é tão insuficiente e desconfortável e toda aquela alegria era fundo falso, cenário de uma peça que virou monólogo de dois atores. As coisas mudaram e todo mundo admitia. Ele queria uma conversa sincera, uma conversa a qual ele não encontrava caminho. Andava incerto consigo mesmo o que o impedia de saber como chegar até isso: uma conversa sincera.
Devolvia qualquer comentário com violência moral e ela com histeria gratuita. A inconstância do humor, os comentários beirando o sarcasmo que de imediato não parecem chamar atenção, mas, com o tempo desestruturam seus ouvintes. E seguem-se os dias demasiadamente calmos entre paqueras em redes sociais e msn que não davam em nada.
Algumas vezes juntos permaneciam calados como dois curitibanos sós num ônibus. Dividindo o mesmo espaço e aparentemente seguindo para um mesmo destino, os dois de cara séria cada um em seu mundo, sem trocarem ao menos uma frase. A pergunta que diria alguma verdade ou o silêncio que constrói estórias sobre fantasias próprias não lhes daria resposta. Mas, conversar é mais complicado do que calar, fingir pra si mesmo e procurar atalhos mais complicados parece que é o caminho mais correto.


Recebeu uma mensagem do celular:

C vai aparcr?

Respondeu:

Daqui 1 hr.



Para ele algo diz que tudo acabará por dar certo partindo dos momentos mais felizes até compreender os sentidos de um beijo sem afeto. Um copo de vinho na mão, ele sabia que podia ser o melhor, ou, o pior dos homens e viver sem mais nada ou com mais de nada. Tentava encontrar coragem dentro de si em vão. Manteve-se calado. Então deu um daqueles beijos na namorada sem afeto e sabor de álcool. Pegou as chaves, a carteira e saiu pra comprar alguma coisa, cigarro talvez. Quando estava na porta ouviu: - Caio, falou ela baixo, como que chamando para dentro. Ele parou um instante na porta como que para ouvir e o silêncio venceu aos dois.

Caio foi comprar o cigarro e no caminho pensava se voltaria ou se iria ao bar. Queixava-se de não sair sozinho e sair pra encontrar outra mulher não era sair sozinho.

Quando deu por si de novo, agora, já estava vendo o sorriso dela com uma taça de marguerita nos lábios.

Voltou para o apartamento e deitou no sofá. Ligou a tevê e dormiu. No outro dia Flávia tinha saído com as coisas dela.