2 de julho de 2015



Naquele cômodo alugado o silêncio e o pó arrastavam-se dominando o ambiente ostensivamente e paradoxalmente organizados.
Em imanente mudez ao desejo das correntes de ar  o pó movia-se e o silêncio controlava o humor do inquilino, assim como tal controlava o silêncio dentro do ambiente.
Silêncio e pó tal como legiões romanas distribuíam-se por todos os lados sem deixar canto onde não estivesse um ou outro. E nas suas  ações organizadas pelo acaso os movimentos lá dentro destas legiões esbranquiçadas se multiplicavam sem parar, tomando mais e mais posições. Percorrendo a extensão do lugar de ocidente para oriente criando o que parecia ser um vale único, o vale do Pó. Esta ideia onírica saíra da boca de Staub, o vale do Pó, repetiu para si abrindo a porta um dia. Pensando nisto por mais um segundo lembrou-se do Norte da Itália Piemonte , Lombardia e Vêneto, sentiu ressecada a garganta e bebeu vinho sentado na cadeira que era preta. Sentado no seu vale em pouco tempo, numa metáfora , coberto pelo pó e embebido de silêncio passou a ser parte da mobília.

26 de junho de 2015







Cruzar
                                  A vida                                  
Singrar e sangrar.




Nas cruéis mãos da Musa
Tessituras se formam
como ondas
são as pobres palavras
entre o pensar e o escrever.

.
O lápis singra pela branca  página...

Ah! Ulisses,
não há farol que inspire.

Não há paz ou impaciência
nenhum verso com estirpe 
para esta má poética.
   

23 de junho de 2015







Você, olha da escuridão.
Eu, ensaio nossa cegueira
como um cão sem olfato.







Ramerrame


Desacorda-come-trabalha-reza,
ora
 deita com seu vazio
ao lado,
ora.
Numa só palavra 
reclama,
ora,
não existe  um homem 
nada.


27 de maio de 2014

Bobagem romântica


“Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar”
(Cecilia Meireles)
                                                     

Consentimos que tudo o que podemos sentir é este momento, hoje,
 E poderá ser um naufrágio amanhã.
Nossos corpos
Uns contra os outros
   mínimas tábuas de salvação
contra rochedos.
O que podemos sentir é este momento
para sermos felizes 
Podemos abdicar da eternidade
                                                              E amar aos pedaços do que somos.

15 de setembro de 2013

Se não falo do silencio do meu mundo é porque é um vício
 É porque vivo deste duro, mas, belo ofício
 De não dizer qual caminho deves seguir e só sigo o meu.
 Então do silêncio da minha boca 
 Você pinta seus quadros fazendo das suas cores próprias, 
 Pontos de fuga e sombras claro escuras
  Imagiando quem realmente não sou...

8 de fevereiro de 2013

Vida

Parado aqui e olhando pra dentro desse fosso e o mais certo a se fazer é dar meu último passo. Aqui sozinho, no meio da cidade mais populosa do país, estou pronto. Suicídio inevitável. È só dar um passo e todos os meus desejos mais antigos se desfazem.
Minha última decisão como um dedo indicador no botão delete. Uma palavra em uma frase desaparece e outra e mais outra. Meu corpo o traço que atravessando o fosso vai apagando a frase que é minha vida e na queda cada andar é a marca de uma letra que some da minha existência. Fazendo isto estou abrindo meus braços para o encontro que talvez salve meu ultimo lastro comigo mesmo.
Entrego minha morte diante de verdades que nunca fizeram sentido. Nesta vida tirada de uma certeza desgastada num moinho de vidros o qual não quero mais.
Desenganos que vem e vão por muitos meios e em vão.
Sendo tolos somos passíveis de viver de tolices. Todos nós somos tolos. Temos crenças indissolúveis, verdades construídas pelo mundo não por nós mesmos. Viemos de lugares genéticos desconhecidos de programações biológicas predefinidas. Uma existência sem escolhas. Em alguns momentos tentamos nos rebelar contra essa ordem tão determinista para apenas seguirmos outra, ou, outras ordens, as quais, se mesclam com a mesma ordem anteriormente definida. Em resumo, entre tudo e em cada minuto misturam-se tolos e mais tolos invisíveis para si próprios e passíveis de si próprios e suas tolices.
Olhos vítreos e fixos na direção do meu provável futuro.
Queria poder me ver, devo parecer patético, um retardado balançando-se sobre os pés olhando pro nada do fosso do elevador. Pois é, eu deveria ter escapado por uma janela e deveria estar parado num parapeito qualquer ou no topo de uma cobertura olhando para cidade que me olharia de volta, mas, imaginar alguém me olhando com pena ou torcendo para que eu pulasse me faria pensar em desistir ou talvez aumentar muito rapidamente meu desejo de pular. Bom, é óbvio que tirar a própria vida é um momento muito íntimo, apesar de que, quem o faz, acaba por dividir com muita gente o efeito de seu ato. Sempre um suicida vira atração no local. Porém não eu.Eu quero ter esses minutos finais só para mim egoisticamente. Viverei só para mim os alguns outros poucos segundos que sobrarão de sangue quente e sinapses depois de atingir o chão...

7 de janeiro de 2013

No momento em que os naufrágios pessoais atingem à praia não existem meios para recolher e reconstruir o que foi destruído pela tempestade.
Depois de passar dias e noites boiando num agitado mar que envolveu o espírito do próprio navegador tudo é escombros...
 E a cada segundo o tempo, esse abismo no qual nos lança a vida e a morte, sem que possa haver uma escolha,traz outras tragédias. 
Tragédias que se unirão para construir novas e estreitas jangadas onde súditos do destino fazemos memórias construídas de areia, novos amigos e amores que naufragarão.

27 de dezembro de 2012

Doppelganger

Sabe querida, me sinto estranho, pois,  quando vou dormir vago a noite toda.E, então, pela manhã acordo sem ter tido descanso. Eu digo isso porque durante a noite enquanto durmo penso coisas que não fiz. Imagino e vejo cenas que não são minhas. Sinto que meu corpo habita um outro pensamento . Outro pensar.
Durante a noite é como se de repente estive vivendo em outra pessoa, e eu, naquele momento, fosse um pensamento vago dessa pessoa. E cada pessoa na qual habito por alguns segundos ou minutos, deixa suas lembranças no interior da minha mente.
Sabe minha querida, eu durmo e acordo um pouco delas também.
Sabe meu amor, acordado tenho estado muito esquisito. Meu pensamento ficou estreito e pensar ficou cansativo.Essas pessoas não tem vida. São vazias. Elas encontram momentos para viver. Mas, depois, caem duramente ao chão do fim do prazer. E dizem convictas que isso é viver. É o que elas dizem todas as noites dentro de mim. Sabe, sempre quis fugir deste tipo de vida de busca imediata. Da vida de procuras, da vida de fingir que quero me encontrar. Ou, encontrar conforto na própria existência. De fingir para si mesmo, ou mesmo, nem saber que não estou procurando, e sim, caminhando sem direção.
Eu me estranho minha querida e durmo, mas, insiste esse pensamento de acordar um pouco de outros homens e mulheres.Desse jeito assim como se absorvido dentro do pensamento deles , então, eu os absorvesse.
Indo e vindo de pensamentos alheios, de um ao outro.
Querida dessa maneira sou um estrangeiro dentro do meu eu.
Por isso te encaminho essa mensagem para ver se meus pensamentos deixam de ser meus...

16 de outubro de 2012

(Esta é a terra morta.) T. S. Elliot – “Os homens ocos - Fragmento lll”

Era um belo bairro burguês com suas mansões de elites e ruas higienizadas. Dentre as nuvens cinzas o sol finalmente aparecia. Eram mais ou menos 4 horas da tarde  e ele estava em pé diante do alto portão feito de ferro entrelaçado. Vestido num terno cor cinza, de camisa e sem gravata, os longos cabelos acinzentados estavam presos abaixo da nuca e os longos fios alcançavam até o meio das costas.Sua altura e porte, a sua aparência serena lhe davam ares de um anjo.
Naquela tarde depois de surgir radiante o sol aparecia e se escondia entre as nuvens cinzentas. Quando os seus raios transpassavam a espessa barreira cor de chumbo a sensação de calor e abafamento só aumentava. Quando os raios surgiam vinham com a força de algo que rebenta a represa que o contém e transborda de uma só vez. O calor fazia com que a água da chuva que caíra anteriormente e estava sobre as coisas ou em pequenas gotas ou ainda empoçada evaporarem rapidamente fazendo a sensação de calor e falta de ar ficarem muito piores.Entretanto ele impassível estava sem uma gota de suor  ou aparentando qualquer desconforto com o clima.
 Lá parado aguardou alguns segundos como se estivesse observando o movimento da rua ou aguardando que o portão se abrisse.Então caminhou até passar pelo portão como um fantasma reaparecendo já junto ao jardim quase sem flores. Eram os primeiros dias que anunciavam a primavera que vinha depois de um inverno muito frio e prolongado até poucas semanas atrás. E como o inverno se prolongou além de seu tempo tanto as árvores como os arbustos tinham poucas folhas que tentavam ainda crescer verdes junto com algumas folhas em tons de marrom e pastel que estavam lá apenas pelo acaso.
Sem demonstrar qualquer interesse com o que acontecia ao redor continuava seu caminho e mais uns poucos segundos chegou ao pátio defronte a casa, então, defronte a porta assim como no portão passou alcançando o vestíbulo. Lá dentro havia um portal dourado sobre o átrio e ele parou entre as colunas brancas olhou para cima observou os ábacos também dourados e para ele pareceram tão belos como os das colunas brancas decoradas do teatro nacional de Sofia. Observou a abóboda de claustro detalhada em gesso e mármore Fiorentino e mais lembranças vieram ao pensamento. Mais uns passos e chegou à antessala. Parado bem ao centro, passou a olhar ao seu redor e observar o que havia por perto. Com o olhar mais atento para as paredes laterais viu que elas eram diferentes recobertas por um papel de parede onde estavam impressas cenas medievais que pareciam afrescos e pinturas dos antigos palácios e igrejas medievais. Desenhos de cenas cotidianas daquela época em papel gasto e escurecido pelo tempo. Reter-se ali lhe pareceu agradável, então, começou a observar senhores e damas, servos, soldados, cenas de mártires com anjos e santos, freiras, monges e monastérios. Lembranças ainda vivas de um tempo em que as coisas eram mais simples e lembrava-se da topografia do além antes de Dante e ao distrair-se estava adiando o porquê de estar ali. Deu uma meia volta e procurou pela escada. Pelos vitrais a luz difusa do dia que ficou nublado penetrava o ambiente tornando os objetos, o ambiente e as paredes mais escurecidos e pesados. O relógio marca ainda 16 horas enquanto sobe pela escada para chegar ao andar superior da casa. Dos degraus, balaústres da escada e dos móveis exalavam agradáveis fragrâncias que lembravam o cedro libanês que quando cortado no campo pouco antes do verão espalhavam o perfume de sua seiva que logo que invadiam as narinas, caricias formaram-se em suas memórias.
 Ao chegar ao topo da escada parou diante do quadro de uma bela dama de faces pálidas e cabelos dourados, posta num belo vestido verde aveludado. Realmente neste dia o caráter solene de seu trabalho e que sempre era desprovido de detalhes e marcado pela sua falta de intimidade com o local ganhava uma nuance menos automática. Seu trabalho era apenas levar consigo aqueles que o encontravam. Entretanto neste dia parecia protelar sua chegada ao cômodo de destino. No corredor abriu e olhou dentro dos outros quartos procurando conhecer o lugar. Lentamente nesse passo chegou ao final do corredor e cantarolou uma oração romana muito antiga: *- Ut suscipijubeas animam famulituiillius per manus sanctorum angelorum. Assim chegou onde deveria chegar e no momento certo ele estava lá. Sobre uma tombada poltrona revestida por um tecido vermelho encarnado quase reluzente, o corpo pendurado, o  pescoço roxo as faces brancas e a corda amarrada ao belo e trabalhado chandelier estilo vitoriano.
 *(PARA QUE ORDENES RECEBER A ALMA DESTE TEU SERVO PELAS MÃOS DOS SANTOS ANJOS.) SACRAMENTÁRIO DE SÃO GELÁSIO I (PAPA DE 492 A 496)







Vendo as flores da janela. Sem sol. 
Vendo minhas lágrimas. E todo o cinza. 
Vendo meus sorrisos sem sentido. 
Vendo a beleza dada pelos olhos diante desse espelho sem reflexo.
Vendo sonhos irrealizáveis.
E vendo tudo que não vivi.
Assim a certeza de que não perdi nada nesta vida.