Amanheci incompreensível
comi e bebi, mas não sou eu comendo e bebendo.
Voltei dormir pensando
que caminhava depois de morto.
Passo alguns minutos olhando o teto
a vida morreu
não eu.
2 de junho de 2008
E
E ela pergunta por onde você andou,
E pensa em voltar.
E fica tão distante,
E te esquece,
E já apagou o que era seu de si mesma.
E pensa em voltar.
E fica tão distante,
E te esquece,
E já apagou o que era seu de si mesma.
9 de abril de 2008
24 de março de 2008
AUTÓPSIA DE UM POETA PÓS MODERNO
Sob luzes amareladas antes de desligarem os aparelhos decretaram:
-Dentro deste homem não há nada. A autópsia é necessária.O legista chamado. Na branca e fria sala de necropsia enfileirou calmamente seus instrumentos - Bisturi, pinças, facas e lâminas, osteótomos, luva e serra na mão. O corpo ele cortou, cerrou, sangrou a última linfa e no final, após toda a carne revirada, lacerada, cortada, conferidos em parte e no todo observando a carcaça sobre a mesa resmungou:
-Disseram-me que não havia nada. Virou-se para outra mesa, pegou o gravador respirou pausadamente devido ao cansaço e anotou com a voz embargada.
-Errata: - Este homem foi poeta, dentro do peito reconheço os escombros de suas crenças.
-Dentro deste homem não há nada. A autópsia é necessária.O legista chamado. Na branca e fria sala de necropsia enfileirou calmamente seus instrumentos - Bisturi, pinças, facas e lâminas, osteótomos, luva e serra na mão. O corpo ele cortou, cerrou, sangrou a última linfa e no final, após toda a carne revirada, lacerada, cortada, conferidos em parte e no todo observando a carcaça sobre a mesa resmungou:
-Disseram-me que não havia nada. Virou-se para outra mesa, pegou o gravador respirou pausadamente devido ao cansaço e anotou com a voz embargada.
-Errata: - Este homem foi poeta, dentro do peito reconheço os escombros de suas crenças.
20 de março de 2008
No banheiro duas mulheres tocavam-se nos mamilos enrijecidos, pontiagudos os seios alvos contorciam-se sob os dedos trêmulos.
As faces róseas tocavam-se levemente lado a lado após desvencilharem-se as línguas e os lábios úmidos rosa e encarnados.Em meio a fumaça e os resíduos de suor pesam os olhos, meus tredos,que não cansam de espreitar com volúpia e solidão.
As faces róseas tocavam-se levemente lado a lado após desvencilharem-se as línguas e os lábios úmidos rosa e encarnados.Em meio a fumaça e os resíduos de suor pesam os olhos, meus tredos,que não cansam de espreitar com volúpia e solidão.
29 de janeiro de 2008
28 de janeiro de 2008
Já não era mais verão...
Naquela noite fizemos uma fogueira na praia e todos foram juntando-se conforme a escuridão crescia. E o fogo aumentava crispando toda a faia que estalava, lançando pequenas estrelas vermelhas pelo ar e pelo chão. O vinho passava pelas mãos e a lucidez esmaecia. Aos passos lentos dos que chegavam juntavam-se os passos dos que levantavam, e a areia fremia aguda.
Uns braços encontravam outros, uns lábios encontravam outros.
As vozes aumentavam junto com as risadas e os murmúrios, lentos suspiros misturavam-se. Muitas palavras perdiam-se nos ouvidos ébrios e outras cresciam num sentido espetacular.
O mar calmo por horas soprou as ondas tentando aproximar-se e dele pareciam brotar as brisas sobre o fogo que se dispersava. Aos poucos só ouvia-se as brisas e as ondas e o silêncio começava a chegar invadindo sem permissão alguma. A luz vinha surgindo apagando as risadas e trazendo a vontade continuar ali. E aquelas bocas úmidas se largavam para caminharem lado a lado, de mãos dadas e vago pensamento:
-Vem comigo.
Uns braços encontravam outros, uns lábios encontravam outros.
As vozes aumentavam junto com as risadas e os murmúrios, lentos suspiros misturavam-se. Muitas palavras perdiam-se nos ouvidos ébrios e outras cresciam num sentido espetacular.
O mar calmo por horas soprou as ondas tentando aproximar-se e dele pareciam brotar as brisas sobre o fogo que se dispersava. Aos poucos só ouvia-se as brisas e as ondas e o silêncio começava a chegar invadindo sem permissão alguma. A luz vinha surgindo apagando as risadas e trazendo a vontade continuar ali. E aquelas bocas úmidas se largavam para caminharem lado a lado, de mãos dadas e vago pensamento:
-Vem comigo.
Acamada desde muito cedo, acostumou-se olhar para o teto, passava dia após dia e noite após noite observando, cuidando dos detalhes que os outros com seus olhos não atentos e ocupados não viam. O que para os outros era imperceptível e parecia ser apenas de uma cor, para ela não era. O teto era um grande e retangular pedaço do mundo de arco-íris onde a cada dia se matizavam cores e tons. Conforme o dia clareava as matizes se aninhavam no teto, diante de seus olhos, e toda sua diversão começava. Nos dias de sol gostava que colocassem uma bacia com água no chão, com a luz do sol que entrava pela janela, aquela água se tornava um cristal que lançava para todos os lados, em todas as paredes, luzes coloridas de todos os tipos. O quarto num segundo, quando tremia a água da bacia, se transformava em um caleidoscópio iluminado, no qual ela estava dentro.
Nos dias em que o sol teimava em não aparecer, ou chovia o dia todo, ficava olhando o teto e imaginando pequenas e grandes cidades cobertas de brumas cinzentas. Via os prédios, casas surgindo e desaparecendo conforme a luz entrava pela janela. Via os cidadãos atarefados, policiais controlando extensas ruas de madeira, o córrego que respingava quando a chuva atravessava a madeira nas goteiras. Sua alegria era simples.
Quando a dor começou a invadir-lhe o pensamento dia e noite incessante não reclamou, apenas pediu para pintar o forro de preto e fecharem as cortinas. Serviço executado. Então podia ver a luz entrar apenas por minúsculas frestas. Imaginou que assim: com o sol sempre do lado de fora não deixaria a morte buscá-la, pois não haveria sombras para ela esconder-se atrás, ou que a poderia ver entrando pela porta do quarto e a encarando frente a frente gritaria para abrirem a cortina e a luz forte e quente do sol a afastaria. Mas nada é assim, e chegando a noite não conseguia dormir, estava ofegante com os olhos semi cerrados quando a luz pareceu abrir a porta e entrou. Sentiu que estava caminhando sem medo e sem dor e aquela temida morte deixou de ser uma estranha pela qual esperou.
Nos dias em que o sol teimava em não aparecer, ou chovia o dia todo, ficava olhando o teto e imaginando pequenas e grandes cidades cobertas de brumas cinzentas. Via os prédios, casas surgindo e desaparecendo conforme a luz entrava pela janela. Via os cidadãos atarefados, policiais controlando extensas ruas de madeira, o córrego que respingava quando a chuva atravessava a madeira nas goteiras. Sua alegria era simples.
Quando a dor começou a invadir-lhe o pensamento dia e noite incessante não reclamou, apenas pediu para pintar o forro de preto e fecharem as cortinas. Serviço executado. Então podia ver a luz entrar apenas por minúsculas frestas. Imaginou que assim: com o sol sempre do lado de fora não deixaria a morte buscá-la, pois não haveria sombras para ela esconder-se atrás, ou que a poderia ver entrando pela porta do quarto e a encarando frente a frente gritaria para abrirem a cortina e a luz forte e quente do sol a afastaria. Mas nada é assim, e chegando a noite não conseguia dormir, estava ofegante com os olhos semi cerrados quando a luz pareceu abrir a porta e entrou. Sentiu que estava caminhando sem medo e sem dor e aquela temida morte deixou de ser uma estranha pela qual esperou.
23 de janeiro de 2008
Quero ouvir aquela música que você escolheu para ser a minha música. Mas, para que agora. Tudo está feito e desfeito. Nada foi, nada pode ser feito do que se fez e do que se desfez. A hora foi em outrora.Naquelas horas nosso futuro acabou por ser aquele presente obscuro vivido. Hoje, um passado que nos tornou mais duros. Esquecemos de nós e os nós que nos atavam eram nós, não laços ou um enlace de afetos. Eram confusas linhas incertas que pareciam corretas. E a luz se apagou e nos voltamos para uma extrema sinceridade entre estranhos que se respeitam.
21 de janeiro de 2008
Medo do Vento
Quando estou procurando uma idéia num dia cinzento. - Por isso aqui me escondo do vento-. Surgem amorfas imagens que circulam, flutuam macias e lentas, pequenas e marrom-esverdeadas. Outonais sempre e sempre. -Também tenho andado em círculos-. Tento fugir, e criar imagens com o silêncio que entra pela janela carregada pela luz pálida. Não há novo enredo. O céu cinza, nuvens chumbo... Folhas velhas e secas, coloridas e dolorosas espalhadas sobre um dia de lembranças emotivas...
Ainda danças com aquele teu sorriso. Os dentes claros entre os lábios grossos e róseos. A roupa frouxa contornando o corpo esguio, o olhar esverdeado carregando um segredo que vinha no ventre.
Lembranças...
E logo depois o vento acabou soprando frio para nós. Transformou a alegria em suspiros ensaiados. Nossos planos transformaram-se em pensamentos truncados, e numa caixa sem a chave correta acabaram tornando-se inúteis, perdidos.
Implacável para nós foi este vento que nem ao tempo- que dizem que tudo cura- cedeu e sempre retornou abrindo a mesma chaga. E por isso aqui do vento me escondo. Pois, o meu coração, não se cansa de tentar me expor trazendo oculto o que já passou. Reconduzindo aos passos que já dei. Então, passo sozinho num tempo que passou, tracejando pelo que aconteceu. Como um barco sem rumo, sem vela e no escuro. Dando voltas ao redor do meu quarto, ou qualquer outro lugar.
-E por isso aqui do vento me escondo-.
Peço um café, enquanto o sangue da velha chaga vai coagulando em cima da mesa sobre esta folha de papel.
Ainda danças com aquele teu sorriso. Os dentes claros entre os lábios grossos e róseos. A roupa frouxa contornando o corpo esguio, o olhar esverdeado carregando um segredo que vinha no ventre.
Lembranças...
E logo depois o vento acabou soprando frio para nós. Transformou a alegria em suspiros ensaiados. Nossos planos transformaram-se em pensamentos truncados, e numa caixa sem a chave correta acabaram tornando-se inúteis, perdidos.
Implacável para nós foi este vento que nem ao tempo- que dizem que tudo cura- cedeu e sempre retornou abrindo a mesma chaga. E por isso aqui do vento me escondo. Pois, o meu coração, não se cansa de tentar me expor trazendo oculto o que já passou. Reconduzindo aos passos que já dei. Então, passo sozinho num tempo que passou, tracejando pelo que aconteceu. Como um barco sem rumo, sem vela e no escuro. Dando voltas ao redor do meu quarto, ou qualquer outro lugar.
-E por isso aqui do vento me escondo-.
Peço um café, enquanto o sangue da velha chaga vai coagulando em cima da mesa sobre esta folha de papel.
MALINA
Resolveu vestir-se.
Acabou de vestir-se com lentidão.
Pegou rapidamente o pagamento de sobre a cama. Pegou o dinheiro para livrar-se de um embaraço tolo que estranhamente lhe invadiu por alguns segundos. Semelhante a alguém que esconde de uma visita inesperada algo que esqueceu sobre a cama e que causaria vergonha. Já de pé, um pouco pálida ainda, guardou jogando num dos compartimentos da bolsa e saiu pela porta do quarto. Caminhava no corredor tentando conter os olhos quase lacrimejantes. No peito ardia um misto de dor e satisfação. Seguia em direção a saída, precisava então maquiar outro sorriso nos lábios.
Já era quase manhã e tinha voltado para boate, tendo passado aquele sentimento de fio de culpa, sorria perto da entrada. Ali ouvia o taxista que todas as manhãs puxava conversa, talvez para ser simpático e espantar o último ataque do sono, ou quem sabe receber de volta a simpatia com um afago antes de ir para casa. Nunca o ouvira direito, e se chegava a ter alguma atenção ao que ele dizia, lhe pareciam coisas repetitivas e imbecis. Mas, naquela manhã, ela o ouvia sorrindo, pensando em levá-lo até onde ele gostaria de ir. Ouvia atentamente a história do corpo decapitado e sem a genitália, encontrado dentro de um quartinho na Treze de Maio. Então sorriu lânguida, enquanto comprimia as mãos por causa do frio que sempre faz quando amanhece e para esconder seu segredo sob as unhas carmim.
Acabou de vestir-se com lentidão.
Pegou rapidamente o pagamento de sobre a cama. Pegou o dinheiro para livrar-se de um embaraço tolo que estranhamente lhe invadiu por alguns segundos. Semelhante a alguém que esconde de uma visita inesperada algo que esqueceu sobre a cama e que causaria vergonha. Já de pé, um pouco pálida ainda, guardou jogando num dos compartimentos da bolsa e saiu pela porta do quarto. Caminhava no corredor tentando conter os olhos quase lacrimejantes. No peito ardia um misto de dor e satisfação. Seguia em direção a saída, precisava então maquiar outro sorriso nos lábios.
Já era quase manhã e tinha voltado para boate, tendo passado aquele sentimento de fio de culpa, sorria perto da entrada. Ali ouvia o taxista que todas as manhãs puxava conversa, talvez para ser simpático e espantar o último ataque do sono, ou quem sabe receber de volta a simpatia com um afago antes de ir para casa. Nunca o ouvira direito, e se chegava a ter alguma atenção ao que ele dizia, lhe pareciam coisas repetitivas e imbecis. Mas, naquela manhã, ela o ouvia sorrindo, pensando em levá-lo até onde ele gostaria de ir. Ouvia atentamente a história do corpo decapitado e sem a genitália, encontrado dentro de um quartinho na Treze de Maio. Então sorriu lânguida, enquanto comprimia as mãos por causa do frio que sempre faz quando amanhece e para esconder seu segredo sob as unhas carmim.
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