14 de setembro de 2008

Solidão

O SILÊNCIO QUE VEM DO ESPELHO OBSERVA MEUS MOVIMENTOS
-SEI DISSO-
E DA FÊMEA QUE PROCURA ATRAVESSÁ-LO
LABIOS DE UM ESPELHO
−MULHER SOU DESGRAÇADO.

18 de julho de 2008

Recorte

As rugas, as cicatrizes, os cabelos brancos e todo o mais. Os espelhos nos dizem que tudo deve se multiplicar. Em silêncio, movimentam-se os lábios daquele que está no espelho. E está dizendo todas estas coisas sem sons, aquele ‘nós’, com nossos lábios, nosso olhar. E cresce o estranhamento em ver a si próprio noutro rosto, descobrindo que a vida é apenas um recorte.

12 de julho de 2008

Mascarar é o que restou. Nenhum silêncio seria mais longo que aquele, nem poderia. Não havia como concordar. Dizer um simples sim para Clara.
Ela mentia, e isto era óbvio, e na verdade eu não me importava. Intimamente, descobria um outro meio de me dizer que Clara deixou de ser uma pessoa que me fazia acreditar.
Difícil. Eu continuava procurando. Deixando de lado, dissimulando. Dizendo frases sem profundidade, sem ambigüidades, escolhidas para não dizerem nada além das próprias palavras.
Passei a ceder. Amá-la, e assim pôde matar-me. Afinal, era o mais sensato. Mais que viver. Clara me perdia. Eu me perdia.
A palavra que me persegue eu não quero entendê-la. Digo para mim que não importa se eu fechar os olhos, e mais, se for covarde pela vida toda que me resta. Já deixei de querer entender as operações que minha mente faz. Revolta, ira, desconcerto, então novamente reconstrução e conserto. Círculos que o coração faz.

2 de junho de 2008

NÃO EU

Amanheci incompreensível
comi e bebi, mas não sou eu comendo e bebendo.
Voltei dormir pensando
que caminhava depois de morto.
Passo alguns minutos olhando o teto
a vida morreu
não eu.

E

E ela pergunta por onde você andou,
E pensa em voltar.
E fica tão distante,
E te esquece,
E já apagou o que era seu de si mesma.

9 de abril de 2008

Aquilo que deveria ser eu sou:
Menos do que sou,
Menos do que esperava,
Menos o que esperavam
Tal uma Inequação.

Denominamos inequação toda sentença matemática aberta por uma desigualdade.

8 de abril de 2008


Odilon Redon France, 1840-1916
Le silence - 1911
oil, 21 1/4 x 21 1/2.

24 de março de 2008

AUTÓPSIA DE UM POETA PÓS MODERNO

Sob luzes amareladas antes de desligarem os aparelhos decretaram:
-Dentro deste homem não há nada. A autópsia é necessária.O legista chamado. Na branca e fria sala de necropsia enfileirou calmamente seus instrumentos - Bisturi, pinças, facas e lâminas, osteótomos, luva e serra na mão. O corpo ele cortou, cerrou, sangrou a última linfa e no final, após toda a carne revirada, lacerada, cortada, conferidos em parte e no todo observando a carcaça sobre a mesa resmungou:
-Disseram-me que não havia nada. Virou-se para outra mesa, pegou o gravador respirou pausadamente devido ao cansaço e anotou com a voz embargada.
-Errata: - Este homem foi poeta, dentro do peito reconheço os escombros de suas crenças.

20 de março de 2008

No banheiro duas mulheres tocavam-se nos mamilos enrijecidos, pontiagudos os seios alvos contorciam-se sob os dedos trêmulos.
As faces róseas tocavam-se levemente lado a lado após desvencilharem-se as línguas e os lábios úmidos rosa e encarnados.Em meio a fumaça e os resíduos de suor pesam os olhos, meus tredos,que não cansam de espreitar com volúpia e solidão.

29 de janeiro de 2008

Meu corpo e meus desejos
querem todo instante
teu corpo que é um espelho.

Lugar onde navego sem leme
com os meus olhos
de Velas,
e os meus dedos timoneiros.

28 de janeiro de 2008

Já não era mais verão...

Naquela noite fizemos uma fogueira na praia e todos foram juntando-se conforme a escuridão crescia. E o fogo aumentava crispando toda a faia que estalava, lançando pequenas estrelas vermelhas pelo ar e pelo chão. O vinho passava pelas mãos e a lucidez esmaecia. Aos passos lentos dos que chegavam juntavam-se os passos dos que levantavam, e a areia fremia aguda.
Uns braços encontravam outros, uns lábios encontravam outros.
As vozes aumentavam junto com as risadas e os murmúrios, lentos suspiros misturavam-se. Muitas palavras perdiam-se nos ouvidos ébrios e outras cresciam num sentido espetacular.
O mar calmo por horas soprou as ondas tentando aproximar-se e dele pareciam brotar as brisas sobre o fogo que se dispersava. Aos poucos só ouvia-se as brisas e as ondas e o silêncio começava a chegar invadindo sem permissão alguma. A luz vinha surgindo apagando as risadas e trazendo a vontade continuar ali. E aquelas bocas úmidas se largavam para caminharem lado a lado, de mãos dadas e vago pensamento:
-Vem comigo.
Acamada desde muito cedo, acostumou-se olhar para o teto, passava dia após dia e noite após noite observando, cuidando dos detalhes que os outros com seus olhos não atentos e ocupados não viam. O que para os outros era imperceptível e parecia ser apenas de uma cor, para ela não era. O teto era um grande e retangular pedaço do mundo de arco-íris onde a cada dia se matizavam cores e tons. Conforme o dia clareava as matizes se aninhavam no teto, diante de seus olhos, e toda sua diversão começava. Nos dias de sol gostava que colocassem uma bacia com água no chão, com a luz do sol que entrava pela janela, aquela água se tornava um cristal que lançava para todos os lados, em todas as paredes, luzes coloridas de todos os tipos. O quarto num segundo, quando tremia a água da bacia, se transformava em um caleidoscópio iluminado, no qual ela estava dentro.
Nos dias em que o sol teimava em não aparecer, ou chovia o dia todo, ficava olhando o teto e imaginando pequenas e grandes cidades cobertas de brumas cinzentas. Via os prédios, casas surgindo e desaparecendo conforme a luz entrava pela janela. Via os cidadãos atarefados, policiais controlando extensas ruas de madeira, o córrego que respingava quando a chuva atravessava a madeira nas goteiras. Sua alegria era simples.
Quando a dor começou a invadir-lhe o pensamento dia e noite incessante não reclamou, apenas pediu para pintar o forro de preto e fecharem as cortinas. Serviço executado. Então podia ver a luz entrar apenas por minúsculas frestas. Imaginou que assim: com o sol sempre do lado de fora não deixaria a morte buscá-la, pois não haveria sombras para ela esconder-se atrás, ou que a poderia ver entrando pela porta do quarto e a encarando frente a frente gritaria para abrirem a cortina e a luz forte e quente do sol a afastaria. Mas nada é assim, e chegando a noite não conseguia dormir, estava ofegante com os olhos semi cerrados quando a luz pareceu abrir a porta e entrou. Sentiu que estava caminhando sem medo e sem dor e aquela temida morte deixou de ser uma estranha pela qual esperou.

23 de janeiro de 2008

Quero ouvir aquela música que você escolheu para ser a minha música. Mas, para que agora. Tudo está feito e desfeito. Nada foi, nada pode ser feito do que se fez e do que se desfez. A hora foi em outrora.Naquelas horas nosso futuro acabou por ser aquele presente obscuro vivido. Hoje, um passado que nos tornou mais duros. Esquecemos de nós e os nós que nos atavam eram nós, não laços ou um enlace de afetos. Eram confusas linhas incertas que pareciam corretas. E a luz se apagou e nos voltamos para uma extrema sinceridade entre estranhos que se respeitam.

21 de janeiro de 2008

Medo do Vento

Quando estou procurando uma idéia num dia cinzento. - Por isso aqui me escondo do vento-. Surgem amorfas imagens que circulam, flutuam macias e lentas, pequenas e marrom-esverdeadas. Outonais sempre e sempre. -Também tenho andado em círculos-. Tento fugir, e criar imagens com o silêncio que entra pela janela carregada pela luz pálida. Não há novo enredo. O céu cinza, nuvens chumbo... Folhas velhas e secas, coloridas e dolorosas espalhadas sobre um dia de lembranças emotivas...
Ainda danças com aquele teu sorriso. Os dentes claros entre os lábios grossos e róseos. A roupa frouxa contornando o corpo esguio, o olhar esverdeado carregando um segredo que vinha no ventre.
Lembranças...
E logo depois o vento acabou soprando frio para nós. Transformou a alegria em suspiros ensaiados. Nossos planos transformaram-se em pensamentos truncados, e numa caixa sem a chave correta acabaram tornando-se inúteis, perdidos.
Implacável para nós foi este vento que nem ao tempo- que dizem que tudo cura- cedeu e sempre retornou abrindo a mesma chaga. E por isso aqui do vento me escondo. Pois, o meu coração, não se cansa de tentar me expor trazendo oculto o que já passou. Reconduzindo aos passos que já dei. Então, passo sozinho num tempo que passou, tracejando pelo que aconteceu. Como um barco sem rumo, sem vela e no escuro. Dando voltas ao redor do meu quarto, ou qualquer outro lugar.
-E por isso aqui do vento me escondo-.
Peço um café, enquanto o sangue da velha chaga vai coagulando em cima da mesa sobre esta folha de papel.

MALINA

Resolveu vestir-se.
Acabou de vestir-se com lentidão.
Pegou rapidamente o pagamento de sobre a cama. Pegou o dinheiro para livrar-se de um embaraço tolo que estranhamente lhe invadiu por alguns segundos. Semelhante a alguém que esconde de uma visita inesperada algo que esqueceu sobre a cama e que causaria vergonha. Já de pé, um pouco pálida ainda, guardou jogando num dos compartimentos da bolsa e saiu pela porta do quarto. Caminhava no corredor tentando conter os olhos quase lacrimejantes. No peito ardia um misto de dor e satisfação. Seguia em direção a saída, precisava então maquiar outro sorriso nos lábios.
Já era quase manhã e tinha voltado para boate, tendo passado aquele sentimento de fio de culpa, sorria perto da entrada. Ali ouvia o taxista que todas as manhãs puxava conversa, talvez para ser simpático e espantar o último ataque do sono, ou quem sabe receber de volta a simpatia com um afago antes de ir para casa. Nunca o ouvira direito, e se chegava a ter alguma atenção ao que ele dizia, lhe pareciam coisas repetitivas e imbecis. Mas, naquela manhã, ela o ouvia sorrindo, pensando em levá-lo até onde ele gostaria de ir. Ouvia atentamente a história do corpo decapitado e sem a genitália, encontrado dentro de um quartinho na Treze de Maio. Então sorriu lânguida, enquanto comprimia as mãos por causa do frio que sempre faz quando amanhece e para esconder seu segredo sob as unhas carmim.

16 de janeiro de 2008

Ela retia-se diante da janela. Calmamente mantinha os braços em V abertos por algum tempo, depois elevava os tornozelos do chão ficando sobre a ponta dos pés. Fazia com que as mãos esticadas se encontrassem acima da cabeça onde finalmente os dedos se tocavam. Por alguns minutos repetia estes movimentos e os raios do sol espargiam sobre ela cândidas e divinas asas de anjo.
No ar começavam a misturar-se o odor úmido da brisa que vinha da janela trazendo o ar mais puro, e os perfumes que se acumularam no quarto durante a noite. Noite, madrugada e manhã encontravam-se numa maré lenta de odores antes imperceptíveis e incompreensíveis.
A luz encontrava sobre o nu do corpo esguio e voluptuoso a alma que se esticava com prazer. E ainda parecia abrigar ternamente aquela pele que desafiava já os primeiros raios do dia.
Os lábios róseos, lívidos, úmidos, lutavam contra os dourados cabelos que na brisa atiravam-se contra eles.
Voltou para cama que recebia a luz do sol e deitou. Os pelos pubianos fulvos eram caracóis de seda desgrenhados, atacados docemente pela luz de finos dedos de aurora. Dedos que adentravam entre as coxas como se desejassem desenhar uma outra seda rosa.
Calada voz de olhos que espreitam
um moribundo em seu dossel
é Lazaro que ainda aguarda Jesus.

Mrs. Pruffocck nos aguarda
para o café da manhã na rua úmida
sob o sol que cai entre velhos edifícios.

E elas cantam uma canção, já é o poente
Passamos por cada homem desta cidade
E não vimos ninguém.
A fuligem e a fumaça do trânsito
Nos encontram a cada esquina junto com os ladrões
e não tememos mal algum.

O café esfriou, nossas vozes se perderam.

Fantasmas que retornam abraçados
Naquele quarto a cama ficava rente à parede
No frigobar a cerveja quente.

Falávamos outra vez naquela hora púrpura e confusa
Que Lázaro voltou dos mortos
O café esfriou.

Mrs. Pruffocck calada olhava para a calçada
A chuva caia fina como pó , e saímos apressados
Tentando apanhar o sol se escondendo entre as velhas construções.

14 de janeiro de 2008

As mãos dispostas em forma de duas conchas rosadas. Os olhos negros fixos nas mãos repousadas sobre o colo. Sentada na beira da cama, os ruídos da chuva vinham da rua através da janela e ouvia a água que escorria pelas calhas velhas rangendo intermitentes. Estava só fazia apenas alguns minutos, bem uns vinte para falar a verdade. Já havia cumprido sua tarefa tantalica e preparava-se para vestir-se. Resolveu ficar nua, pegou um livro que ela encontrara mais cedo, e começou a ler:
Abraça-te ao vinho amargo como o fel da bile para esquecer que o dia vem quando chegam enfim as legiões da noite. Que a noite é o fim do dia, e a escuridão ofegante pulsa, busca nos cantos iluminados os últimos reflexos e as últimas mãos quentes para esfriá-las. Beija longamente este teu último dia com a língua frouxa e as salivas quentes, porque o fim virá destes dias. E não chorarás o coração que deixaste para trás, o desejo que mataste no último momento e as crianças que não te nascerão. Esqueças também, do teu pai vulto cego e o vulto da luz no teu quarto. Esqueças, amanhece corpo gélido, sem dizer um olá para brisa, ainda que ela lhe beije doce às faces úmidas de lágrimas... (Guíllen Enfermo)
O verão chuvoso parecia mais quente este ano e sentir-se mais só do que qualquer outra vez parecia muito mais normal. Nunca conseguiu fazer os sonhos atravessarem a cabeça e não seria agora que algum se realizaria. O doce nunca lhe chegaria até a boca.E também olhar o que realmente era, o que realmente acontecia, para quê?Mais um estranho viria. Mais uma hora passando em seu seio esquerdo.