Naquela noite fizemos uma fogueira na praia e todos foram juntando-se conforme a escuridão crescia. E o fogo aumentava crispando toda a faia que estalava, lançando pequenas estrelas vermelhas pelo ar e pelo chão. O vinho passava pelas mãos e a lucidez esmaecia. Aos passos lentos dos que chegavam juntavam-se os passos dos que levantavam, e a areia fremia aguda.
Uns braços encontravam outros, uns lábios encontravam outros.
As vozes aumentavam junto com as risadas e os murmúrios, lentos suspiros misturavam-se. Muitas palavras perdiam-se nos ouvidos ébrios e outras cresciam num sentido espetacular.
O mar calmo por horas soprou as ondas tentando aproximar-se e dele pareciam brotar as brisas sobre o fogo que se dispersava. Aos poucos só ouvia-se as brisas e as ondas e o silêncio começava a chegar invadindo sem permissão alguma. A luz vinha surgindo apagando as risadas e trazendo a vontade continuar ali. E aquelas bocas úmidas se largavam para caminharem lado a lado, de mãos dadas e vago pensamento:
-Vem comigo.
28 de janeiro de 2008
Acamada desde muito cedo, acostumou-se olhar para o teto, passava dia após dia e noite após noite observando, cuidando dos detalhes que os outros com seus olhos não atentos e ocupados não viam. O que para os outros era imperceptível e parecia ser apenas de uma cor, para ela não era. O teto era um grande e retangular pedaço do mundo de arco-íris onde a cada dia se matizavam cores e tons. Conforme o dia clareava as matizes se aninhavam no teto, diante de seus olhos, e toda sua diversão começava. Nos dias de sol gostava que colocassem uma bacia com água no chão, com a luz do sol que entrava pela janela, aquela água se tornava um cristal que lançava para todos os lados, em todas as paredes, luzes coloridas de todos os tipos. O quarto num segundo, quando tremia a água da bacia, se transformava em um caleidoscópio iluminado, no qual ela estava dentro.
Nos dias em que o sol teimava em não aparecer, ou chovia o dia todo, ficava olhando o teto e imaginando pequenas e grandes cidades cobertas de brumas cinzentas. Via os prédios, casas surgindo e desaparecendo conforme a luz entrava pela janela. Via os cidadãos atarefados, policiais controlando extensas ruas de madeira, o córrego que respingava quando a chuva atravessava a madeira nas goteiras. Sua alegria era simples.
Quando a dor começou a invadir-lhe o pensamento dia e noite incessante não reclamou, apenas pediu para pintar o forro de preto e fecharem as cortinas. Serviço executado. Então podia ver a luz entrar apenas por minúsculas frestas. Imaginou que assim: com o sol sempre do lado de fora não deixaria a morte buscá-la, pois não haveria sombras para ela esconder-se atrás, ou que a poderia ver entrando pela porta do quarto e a encarando frente a frente gritaria para abrirem a cortina e a luz forte e quente do sol a afastaria. Mas nada é assim, e chegando a noite não conseguia dormir, estava ofegante com os olhos semi cerrados quando a luz pareceu abrir a porta e entrou. Sentiu que estava caminhando sem medo e sem dor e aquela temida morte deixou de ser uma estranha pela qual esperou.
Nos dias em que o sol teimava em não aparecer, ou chovia o dia todo, ficava olhando o teto e imaginando pequenas e grandes cidades cobertas de brumas cinzentas. Via os prédios, casas surgindo e desaparecendo conforme a luz entrava pela janela. Via os cidadãos atarefados, policiais controlando extensas ruas de madeira, o córrego que respingava quando a chuva atravessava a madeira nas goteiras. Sua alegria era simples.
Quando a dor começou a invadir-lhe o pensamento dia e noite incessante não reclamou, apenas pediu para pintar o forro de preto e fecharem as cortinas. Serviço executado. Então podia ver a luz entrar apenas por minúsculas frestas. Imaginou que assim: com o sol sempre do lado de fora não deixaria a morte buscá-la, pois não haveria sombras para ela esconder-se atrás, ou que a poderia ver entrando pela porta do quarto e a encarando frente a frente gritaria para abrirem a cortina e a luz forte e quente do sol a afastaria. Mas nada é assim, e chegando a noite não conseguia dormir, estava ofegante com os olhos semi cerrados quando a luz pareceu abrir a porta e entrou. Sentiu que estava caminhando sem medo e sem dor e aquela temida morte deixou de ser uma estranha pela qual esperou.
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