20 de agosto de 2010

Ela chegou atrasada . E isto não era normal para ela até agora. O sorriso nos lábios dela não era normal. O seu beijo estava rijo e descompassado. Foram então tomar café. Sentaram-se no lugar que parecia mais acolhedor. Ela estava calada e ele não entendia bem porque, entretanto não quis perguntar logo de cara o que estava acontecendo, talvez ele nem quereria saber. Pensou um pouco. O relacionamento ia bem desde o começo há 3 ou 4 meses, eles se gostavam, era o que ele imaginava. Então, ela, após um inspiração um pouco mais profunda, na sua segunda ou terceira frase depois de dizer - Olá e tudo bem?- disparou contra ele: -Estou grávida, e é de você...
- Então, eu quero essa criança...poxa, vai ser meu filho...
- Você é egoista.
- Nãoo,  só acho que...
- Você não tem que achar coisa alguma. Eu não quero.
- Eu acredito em ter...
- Acredita em nada,porra nenhuma. Não quero essa merda pra mim. E nem venha com algum papo hipócrita e babaca.
- Eu sabia, nunca ia dar certo mesmo, cê é mimada, babaca.
- Olha meu, não te devo nada e você não me deve nada. No máximo deve um adeus. Fica asssim mesmo eu me viro.
- Então fico devendo.
Saiu. A direção não importava, muito menos onde. Foi caminhar sem rumo.
Tavares, era o apelido de escola e como o chamavam assim em todo lugar, estava caminhando pelas vielas do Passeio Público chutando areia com o bico do sapato , levando as mãos no bolso olhando vezes para baixo outra para cima. Céu azul, manhã de astral.O suor ensopava-lhe a camisa branca. Engraçado é que ele não gostava de camisa branca, entretanto naquele dia pareceu-lhe especial. Uma camisa branca de algodão.Caminhava e estava sol, mas não era o calor que o fazia suar.Na verdade a temperatura era amena naquele dia no máximo uns 22 ou 23 graus e soprava uma brisa leve constante. O sangue é que lhe fervia, os pensamentos, as lembranças.
Ela ficou e chorou um pouco antes de pagar a conta e sair.
Estava difícil carregar seu corpo enquanto caminhava, respirar era cansativo e confuso. Estava procurando uma saída,e sentia-se uma bola na mesa de bilhar,estava em um labirinto que movia-se constantemente.
Acordar em estado de semiconsciência , eis um belo dom, o corpo parece estar em estado de coma. Os sonhos prolongam-se transpondo o ponto limite com a realidade, as imagens dos sonhos e pesadelos invadem o quarto. E o corpo está e não está lá, entre pedaços de lembranças, flutuando no leito das fantasias sem poder ser tocado nem tocar, sobrenadando na própria cama. De Maistre sabia disto. Aparições de fantasmas , vultos, seres imaginários, todos lá, vivos diante de olhos que fechados parecem abertos , e muitas vezes estão abertos e arregalados, porém, voltam-se para o interior , enxergam para dentro,  num rumo verso e reverso isto porque o que está dentro da mente está fora e o que parece estar fora diante do corpo são coisas que estão somente dentro do inconsciente. Portanto, não existem que no planos das idéias. Neste momento, raro, diga-se de passsagem, que pode ser testemunhado e por vezes recriado sem a vertigem e o estranhamento do fato natural com o uso de narcóticos e medicamentos,que é claro, retiram deste fato o frescor natural o espanto e o fôlego acelerado. Este momento de revêrie, ensueño, quase sonho é fato raro são segundos longos e distantes da frieza que é o plano da realidade e de mergulho assustador na irrealidade mais real da psique.

18 de agosto de 2010

Dama entre camélias

A noite chega e encobre com sua escuridão o cadáver do dia, suspiro algo perdido... 
A Morte, dama doce, no seu gentil vagar entre sombras e estrelas, passeia entre camélias, dizendo calmamente  ao vento que leva e trás e sábio nada guarda:
- Se fores traga-me flores.  

10 de agosto de 2010

Quase sem querer




Ele falou tranquilamente num tom doce:
- Já vou. Tenho de acordar cedo...
O ambiente tornou-se silencioso. A frase ficou oscilante no ar , vazia de sentidos.
Sentiu-se atoleimado e enrubecerão as faces. Como solução levantou rápido e começou a vestir-se.
Ela falou uma frase qualquer que ele mais tarde não sabia se não ouviu ou fingiu que não ouviu. Naquele momento os segundos iam acumulando-se e pareciam horas. Quando finalmente livrou-se de vestir a roupa e por fim calçou os sapatos, levantou, enfiou as mãos no bolso e jogou o dinheiro que devia e mais algum.
Ao chegar na porta, ainda  antes de sair, observou a cama desarrumada e o sorriso frio da prostituta que já ia levantando-se e pegando o dinheiro.

Imagem by Andrew Wyeth. Helga.1978.

5 de agosto de 2010

          Naquela semana a chuva incessante tornava os dias sombrios e as pessoas na rua pareciam fantasmas que circulam apressados escondendo-se debaixo de suas capas de chuva, suas jaquetas, seus gorros, seus guarda-chuvas. Na verdade fantasmas cinza e sem face. Olhando da janela era assim que Helena sentia-se - um fantasma cinza que da janela observava todos os outros. Trancada dentro do seu quarto era uma personagem muda com um sorriso cético entre os lábios. Sentia o tempo nas veias correndo, sentia que o tempo passava na sua carne. Células reconstruindo-se, memórias remontando-se fazendo aumentar o peso sobre seus ombros que ganhava o nome de dias passados. Melancolizava lembranças de dias felizes e iluminados pelo sol, dias que existiram dentro dela. Para tentar alcançá-los novamente, então, fecha os olhos longamente tentando imaginar o que havia naquela rua. E subitamente se dá conta que a memória pode ser tal como o vento que passa vivo e intermitente, que leva e trás qualquer coisa, porem não as guarda .
        E, além do mais, é necessário convencer-se de que lembranças nunca passam de rosas que não tem mais olor, de lágrimas que não tem para onde correr e nem tem mais sabores. São anjos desbotados de tristeza ou felicidade, pinturas numa parede de caverna em que os significados de hoje podem e nem devem ser os que eram em seu tempo. Helena insinua respirar do passado precipitando-se sobre ele com todas as forças , o que ás vezes faz bem para as dores, ajuda a guiar-se na escuridão que vai dissipando-se logo à frente- o futuro. Mesmo que ela saiba que tudo vai acabar sendo o que é. E ainda é outono.