Quando estou procurando uma idéia num dia cinzento. - Por isso aqui me escondo do vento-. Surgem amorfas imagens que circulam, flutuam macias e lentas, pequenas e marrom-esverdeadas. Outonais sempre e sempre. -Também tenho andado em círculos-. Tento fugir, e criar imagens com o silêncio que entra pela janela carregada pela luz pálida. Não há novo enredo. O céu cinza, nuvens chumbo... Folhas velhas e secas, coloridas e dolorosas espalhadas sobre um dia de lembranças emotivas...
Ainda danças com aquele teu sorriso. Os dentes claros entre os lábios grossos e róseos. A roupa frouxa contornando o corpo esguio, o olhar esverdeado carregando um segredo que vinha no ventre.
Lembranças...
E logo depois o vento acabou soprando frio para nós. Transformou a alegria em suspiros ensaiados. Nossos planos transformaram-se em pensamentos truncados, e numa caixa sem a chave correta acabaram tornando-se inúteis, perdidos.
Implacável para nós foi este vento que nem ao tempo- que dizem que tudo cura- cedeu e sempre retornou abrindo a mesma chaga. E por isso aqui do vento me escondo. Pois, o meu coração, não se cansa de tentar me expor trazendo oculto o que já passou. Reconduzindo aos passos que já dei. Então, passo sozinho num tempo que passou, tracejando pelo que aconteceu. Como um barco sem rumo, sem vela e no escuro. Dando voltas ao redor do meu quarto, ou qualquer outro lugar.
-E por isso aqui do vento me escondo-.
Peço um café, enquanto o sangue da velha chaga vai coagulando em cima da mesa sobre esta folha de papel.
21 de janeiro de 2008
MALINA
Resolveu vestir-se.
Acabou de vestir-se com lentidão.
Pegou rapidamente o pagamento de sobre a cama. Pegou o dinheiro para livrar-se de um embaraço tolo que estranhamente lhe invadiu por alguns segundos. Semelhante a alguém que esconde de uma visita inesperada algo que esqueceu sobre a cama e que causaria vergonha. Já de pé, um pouco pálida ainda, guardou jogando num dos compartimentos da bolsa e saiu pela porta do quarto. Caminhava no corredor tentando conter os olhos quase lacrimejantes. No peito ardia um misto de dor e satisfação. Seguia em direção a saída, precisava então maquiar outro sorriso nos lábios.
Já era quase manhã e tinha voltado para boate, tendo passado aquele sentimento de fio de culpa, sorria perto da entrada. Ali ouvia o taxista que todas as manhãs puxava conversa, talvez para ser simpático e espantar o último ataque do sono, ou quem sabe receber de volta a simpatia com um afago antes de ir para casa. Nunca o ouvira direito, e se chegava a ter alguma atenção ao que ele dizia, lhe pareciam coisas repetitivas e imbecis. Mas, naquela manhã, ela o ouvia sorrindo, pensando em levá-lo até onde ele gostaria de ir. Ouvia atentamente a história do corpo decapitado e sem a genitália, encontrado dentro de um quartinho na Treze de Maio. Então sorriu lânguida, enquanto comprimia as mãos por causa do frio que sempre faz quando amanhece e para esconder seu segredo sob as unhas carmim.
Acabou de vestir-se com lentidão.
Pegou rapidamente o pagamento de sobre a cama. Pegou o dinheiro para livrar-se de um embaraço tolo que estranhamente lhe invadiu por alguns segundos. Semelhante a alguém que esconde de uma visita inesperada algo que esqueceu sobre a cama e que causaria vergonha. Já de pé, um pouco pálida ainda, guardou jogando num dos compartimentos da bolsa e saiu pela porta do quarto. Caminhava no corredor tentando conter os olhos quase lacrimejantes. No peito ardia um misto de dor e satisfação. Seguia em direção a saída, precisava então maquiar outro sorriso nos lábios.
Já era quase manhã e tinha voltado para boate, tendo passado aquele sentimento de fio de culpa, sorria perto da entrada. Ali ouvia o taxista que todas as manhãs puxava conversa, talvez para ser simpático e espantar o último ataque do sono, ou quem sabe receber de volta a simpatia com um afago antes de ir para casa. Nunca o ouvira direito, e se chegava a ter alguma atenção ao que ele dizia, lhe pareciam coisas repetitivas e imbecis. Mas, naquela manhã, ela o ouvia sorrindo, pensando em levá-lo até onde ele gostaria de ir. Ouvia atentamente a história do corpo decapitado e sem a genitália, encontrado dentro de um quartinho na Treze de Maio. Então sorriu lânguida, enquanto comprimia as mãos por causa do frio que sempre faz quando amanhece e para esconder seu segredo sob as unhas carmim.
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