26 de abril de 2012

O bibliofilo

As vezes pensava na mãe que pagava os seus estudos e ele e sabia que devia para ela muito mais que afeto e dinheiro.A sua mãe que fora abandonada ainda grávida pelo namorado. Namorado o qual  ela acreditou ser o seu destino para felicidade e o destino tinha mulher feliz , grávida e dois filhos.
Não foi fácil para ela, sem companheiro e não dois , apenas um: o filho. Naqueles tempos ter filho solteira era sentença de desprezo da cidade toda, tanto para um quanto para outro - mãe e filho.
E para mãe dele com aquela experiência passou dali em diante trazer dentro de si profunda descrença e nojo total à doçura masculina. Ainda mais que devido a falta de ofícios mais lucrativos na cidadezinha e pela necessidade, terminou prostituindo-se lá na casa de Maria Gertrudes, logo antes dele nascer.
De fato isso nunca o incomodou, porém,nenhuma saudade de casa. 
Afinal de contas saber a origem do seu conforto não era um conforto e nem ao menos sua prioridade.
 A prioridade era todos os dias sair e caminhar depois das aulas.Ele pesquisava, observava e entrava em qualquer lugar onde estivessem. Ou, nas bibliotecas públicas, ou, nas casas que visitava.
Entrava  e vagarosamente antes mesmo de um bom dia ou boa tarde com os olhos observava nas prateleiras das estantes, mesmo sobre algum móvel aqueles objetos que fascinavam seu espírito. 
Escolhia um dos que via e o acariciava, em cada lombada passava suavemente os dedos, sentia a textura de cada capa e contra capa. Cheirava suavemente o seu interior e cuidadosamente arranhava uma ou duas páginas e então perguntava-se qual era o título , o nome, daquela coisa em suas mãos. Por vezes levava o livro contra o peito e depois esticando os braços o encarava frente a frente para ver o nome do autor como se o olhasse diretamente nos olhos.
Não compreendia as sua atitudes em relação aos livros, mas compreendia que aquele ritual era quase misticismo , era libertário de alguma coisa. Muitas vezes ansiava fugir desse hábito, contudo sentia-se impotente diante daqueles seres. 
Era como na infância  que ele tentava correr por sobre os trilhos com muita atenção e ainda assim escorregava e caia. Disparava um palavrão silencioso dentro de sua cabeça. 
Muitas vezes escondia os livros dentro da bolsa ou do casaco e roubava-os.Depois sozinho deleitava-se revirando as páginas e arranhando uma a uma nervosamente, calmamente, inebriado e depois de passar algum tempo com ele e já sem escrúpulos destruía aquele objeto em suas mãos logo depois do primeiro capitulo.

Sonho Adão




Eu quero alcançar o sentimento com as mãos. 
Eu quero tocar a pele nua e desgastada dos sentimentos com meus dedos. 
Com meus sentidos vou buscar tocar um íntimo que é intangível... 
E o mundo me diz que não posso, os meus olhos dizem que não posso, meu corpo diz que não alcanço a linha do horizonte. 
Mas, meu espírito, esse desobediente vilão da minha vida, diz que nada pode ser impossível e que não existem coisas intangíveis esquecendo-se que ele mesmo é intangível. 
Vá ser feliz. Diz ele. Se eu pudesse. Respondo.