28 de janeiro de 2011

O BIBLIÓFILO

A mãe pagava os estudos dele prostituindo-se lá na cidade onde ele nascera, isso nunca o incomodou. Afinal saber a origem do seu conforto não era sua prioridade e nem um pensamento que fosse sobre isso era sequer levemente agradável ,obviamente. Todos os dias saia para caminhar depois das aulas e entrava em qualquer lugar onde estivessem ou nas bibliotecas públicas ou nas casas que visitava e observava nas prateleiras das estantes ou sobre algum móvel aqueles objetos que fascinavam seu espiríto. Escolhia um dos que via e o acariciava, em cada lombada passava suavemente os dedos, sentia a textura de cada capa e contra capa cheirava suavemente o seu interior e cuidadosamente arranhava uma ou duas páginas e então perguntava-se qual era o título , o nome, daquela coisa em suas mãos. Por vezes levava o livro contra o peito e depois esticando os braços o encarava frente a frente para ver o nome do autor como se o olhasse diretamente nos olhos. Não compreendia as sua atitudes em relação aos livros, mas compreendia que aquele ritual era quase misticismo , era libertário de alguma coisa que ainda que tentasse correr por sobre os trilhos com atenção escorregava e caia. Disparava um palavrão silencioso dentro de sua cabeça. Muitas vezes escondia os livros dentro da bolsa ou do casaco e roubava-os.Depois sozinho deleitava-se revirando as páginas e arranhando uma a uma nervosamente, calmamente, inebriosamente e depois de passar algum tempo com ele e já sem escrúpulos destruia aquele objeto em suas mãos logo depois do primeiro capítulo.

13 de janeiro de 2011

Adão hoje

Ele estava na janela . Aproveitava o vento. Ela sentada. A cama desarrumada.
Incompreensível a distância que existia naquele momento breve. Mas, ainda gosto de você. Por que não fica? As vezes me sinto assim perdido no mundo. Um gira mundo sem rumo. O que eu sinto perde força e sentido . Dizem que a vida é passagem, dizem que viver é perigoso, e sinto que sempre estou de passagem por lugares , pela vida de alguém que me vê, me sente próximo ao seu corpo e sinto que é perigoso viver assim tão perto.Isso é ridículo. Então, em ser ridículo que é perigoso viver. Sei. É uma verdade pra mim, tem sido sempre assim como aquele Neruda: "Foi meu destino Amar e despedir-me."Te entendo, mas fique, tente uma vez ficar. Tentar ,você disse, não me tente fazer desvios da natureza ou do meu destino...
Destruir felicidade e ser feliz.
Cabeça dura e fatalista.Pode ser.Tá sendo ridículo. Fique.
Ele se volta e vai até os pés da cama olha fixamente para ela.
Eva, me deixa em paz.          

5 de janeiro de 2011

Educação sentimental

Com certeza um dia você já se apaixonou por alguém que foi embora.Com certeza você um dia perdeu alguém que foi embora e disse que voltaria, mas, não voltou. Sem dúvida tudo isso doeu. Durante a noite, de madrugada, de manhã na hora em que você abriu os olhos. Mas de todas estas dores e vezes que você perdeu alguém a mais difícil sempre é aquela em que não se ouviu um: adeus. Uma briga, uma frase mal dita, uma atitude errada, uma traição na sua cara, muitas coisas servem de adeus. Entretanto naquelas em que simplesmente o silêncio, o descaso do silêncio, ou a educação em palavras repetidas como se ficassem acima da verdade e acima do sentimento por mais vil que fosse, verdadeiramente só hipocrisia disfarçada em escrúpulos, tudo isso doeu mais em você. E quando digo: você, quero também dizer : eu. Porque sofro com essas coisas tanto quanto você, o difícil não é perder quem se gosta muito, o difícil é não ouvir um adeus quando nos iludimos com o respeito do outro. Afinal esperamos respeito quando o outro diz gostar da gente.
O adeus final não precisa ser um desses de novela com muito efeito e lágrimas, carregando um presente nas mãos quando seu amor vai para longe. Pode ser um desabafo, podiam ser palavras de uma pessoa desanimada, podia ser um porre de madrugada e uma ligação com a voz completamente embriagada dizendo: - Conheci outra pessoa e tô com ela. Ou uma mensagem, um email, uma carta, um scrap assim: Num me liga mais.Num qro falar mais com vc. Tudo simples como dizer um : -Adeus.
Mas quando escolhemos o fingir, desenganar aos poucos ou deixar esfriar para o outro esquecer, deixamos simplesmente de atender qualquer contato depois de juras, lágrimas de saudade, promessas para o futuro é deixar a lacuna sem preencher. A fila pode e deve andar, mas, o coração não é parte de uma fila o sentimento verdadeiro não é inteligente o suficiente, ele fica lá esperando num canto doloroso do ego à espera de um tchau, um adeus que não chega. Apenas uma milhar de chamadas não atendidas e outra milhar de mensagens não respondidas. Silêncio espezinhador, vazio de palavras simples. Fugir pra quê de um adeus? Medo do desconforto ? Encarar a maturidade não é fácil ,mas, necessário para que haja a educação sentimental, gostar, se apaixonar, sentir falta e não te quero por isto ou aquilo, precisam tornar-se verbalizados para que dois cheguem ao quociente comum  do entendimento sem vazios de lacunas do não dito.Para não ficar a dor do fracasso sem nenhuma explicação.

Pablo Neruda:" Foi meu destino Amar e Despedir-me."