9 de fevereiro de 2011

Talvez faça uns três anos que eles estão morando juntos, e até bem pouco tempo era muito bom para ambos. A alegria os atingira como um trem e superaram um começo como todo mundo. E assim como todo mundo o conforto de casa e do amor é tão insuficiente e desconfortável e toda aquela alegria era fundo falso, cenário de uma peça que virou monólogo de dois atores. As coisas mudaram e todo mundo admitia. Ele queria uma conversa sincera, uma conversa a qual ele não encontrava caminho. Andava incerto consigo mesmo o que o impedia de saber como chegar até isso: uma conversa sincera.
Devolvia qualquer comentário com violência moral e ela com histeria gratuita. A inconstância do humor, os comentários beirando o sarcasmo que de imediato não parecem chamar atenção, mas, com o tempo desestruturam seus ouvintes. E seguem-se os dias demasiadamente calmos entre paqueras em redes sociais e msn que não davam em nada.
Algumas vezes juntos permaneciam calados como dois curitibanos sós num ônibus. Dividindo o mesmo espaço e aparentemente seguindo para um mesmo destino, os dois de cara séria cada um em seu mundo, sem trocarem ao menos uma frase. A pergunta que diria alguma verdade ou o silêncio que constrói estórias sobre fantasias próprias não lhes daria resposta. Mas, conversar é mais complicado do que calar, fingir pra si mesmo e procurar atalhos mais complicados parece que é o caminho mais correto.


Recebeu uma mensagem do celular:

C vai aparcr?

Respondeu:

Daqui 1 hr.



Para ele algo diz que tudo acabará por dar certo partindo dos momentos mais felizes até compreender os sentidos de um beijo sem afeto. Um copo de vinho na mão, ele sabia que podia ser o melhor, ou, o pior dos homens e viver sem mais nada ou com mais de nada. Tentava encontrar coragem dentro de si em vão. Manteve-se calado. Então deu um daqueles beijos na namorada sem afeto e sabor de álcool. Pegou as chaves, a carteira e saiu pra comprar alguma coisa, cigarro talvez. Quando estava na porta ouviu: - Caio, falou ela baixo, como que chamando para dentro. Ele parou um instante na porta como que para ouvir e o silêncio venceu aos dois.

Caio foi comprar o cigarro e no caminho pensava se voltaria ou se iria ao bar. Queixava-se de não sair sozinho e sair pra encontrar outra mulher não era sair sozinho.

Quando deu por si de novo, agora, já estava vendo o sorriso dela com uma taça de marguerita nos lábios.

Voltou para o apartamento e deitou no sofá. Ligou a tevê e dormiu. No outro dia Flávia tinha saído com as coisas dela.