I
O senhorio relatava para os curiosos e os outros inquilinos que naquele dia como era costume todo o cômodo estava em silêncio, assim como do lado de fora no corredor parecia não haver vida, pois eram 2 da tarde e exceto pelos fins de semana, nesse horário todas as pessoas sairam para cuidar de suas vidas. O quarto trancado e o inquilino sem sair lhe chamaram a atenção, então, ele bateu na porta sem resposta. Aguardou uns minutos e voltou com a chave para abrir e abrindo a porta logo viu o inquilino, Fausto Staub, com as pernas ainda balançando sobre a cadeira tombada.
Ouvi por alguns minutos o senhorio, falava ele calmamente que o quadro na sua frente não o assustou muito, ele já vira outros suicidas e depois de uma primeira vez o quadro deixa de ser tétrico. Entretanto desta única vez, representou-lhe uma estória que ouvira de sua avó na infância.A avó falava de um silêncio que começava pelo pó do assoalho e subia ao teto cobrindo a vida de seus moradores,falava de um silêncio negro, escuro,se é que o silêncio pode ser algo além do próprio silêncio, dizia ele.
E acrescentava com um ar pensativo : -Nunca vi um quarto tão empoeirado.
II
II
No dia em que Staub chegou na cidade um homem na estação indicou uma pensão que alugava quartos ali bem perto. Caminhou até lá e encontrou o senhorio logo na porta fumando um cigarro de papel feito à mão e bem fedorento. Tratou logo de perguntar se havia um quarto e o senhorio o conduziu subindo a escada e caminhando até o meio do corredor. Defronte a porta o velho tirou as chaves do bolso e abriu. Pediu para que Staub entrasse, anunciou o preço e de antemão foi catalogando de memória toda a mobília. Velho desgraçado, pensou Staub que percebeu na voz dele, o velho usava a enumeração verbal dos bens para que servisse de aviso: - Se sumir algo você paga. Segundo o senhorio constava-se: uma mesa, 10 ou 12 romances repousados numa prateleira de parede logo acima da cama que tinha sobre ela um amarelado e enorme colchão de molas, canto direito ao lado da cama havia uma cadeira estranhamente pintada de preto e sobre ela o inútil relógio que aparentava ter os ponteiros repousando caprichosa e demoradamente em cada segundo.Se quisesse poderia cozinhar, mas nunca depois das 8 da noite. Staub sentiu-se em casa,tinha bons sonhos.
Já nos primeiros dias Staub notou que o senhorio observava sorrateiramente cada quarto olhando pela fechadura em horários específicos. O velho era um voyeur desgraçadamente onanista. E lá pelas nove da noite quase todos os dias sentia o cheiro forte de fumo e suor do velho entrando por debaixo da porta. De vez em quando ia até lá e mexia na tranca para espantar a curiosidade dele.
III
Após alguns meses trabalhava todos os dias num sebo, o que lhe garantia o aluguel, a comida e poder ler de graça. Fausto Staub queria ser escritor, ganhar a vida assim, era o que ele dizia.Para o senhorio o senhor Staub realmente era apenas um homem calado e pontual aos pagamentos.
Staub em todas as horas vagas escrevia. Depois todo o tempo. Tornou seu desejo uma obssessão. Passou a ficar ou debruçado dia após dia sobre uma pilha de papéis tentando com a caneta nas mãos manufaturar um papel para si, o qual não importava o esforço não vinha, não vingava.Nunca deixava os dias de folga para descansar. Com o tempo passando vagaroso, depois de um ano, cansou de tudo e durante a noite, depois do trabalho, começou a frequentar um inferninho, como dizia o senhorio. No início como todo mundo não queria deixar-se levar e aparecer por lá todos os dias.Mas com as visitas repetindo-se logo ficou companheiro do leão de chacára chamado Vida Torta que na maioria do tempo escondia-se num quartinho com beliche nos fundos do bordel, só aparecendo quando o lugar enchia ou uma briga o tirava do sossego habitual e fazia que com seu tamanho descomunal e aparência grotesca pusesse um ou dois porta para fora.Dessa amizade com o Vida Torta suas noites começaram a ser marcadas pelo o que lhe bebia e fumava. Como demônios em profusão vertiginosa os vícios multiplicavam-se.
Staub em todas as horas vagas escrevia. Depois todo o tempo. Tornou seu desejo uma obssessão. Passou a ficar ou debruçado dia após dia sobre uma pilha de papéis tentando com a caneta nas mãos manufaturar um papel para si, o qual não importava o esforço não vinha, não vingava.Nunca deixava os dias de folga para descansar. Com o tempo passando vagaroso, depois de um ano, cansou de tudo e durante a noite, depois do trabalho, começou a frequentar um inferninho, como dizia o senhorio. No início como todo mundo não queria deixar-se levar e aparecer por lá todos os dias.Mas com as visitas repetindo-se logo ficou companheiro do leão de chacára chamado Vida Torta que na maioria do tempo escondia-se num quartinho com beliche nos fundos do bordel, só aparecendo quando o lugar enchia ou uma briga o tirava do sossego habitual e fazia que com seu tamanho descomunal e aparência grotesca pusesse um ou dois porta para fora.Dessa amizade com o Vida Torta suas noites começaram a ser marcadas pelo o que lhe bebia e fumava. Como demônios em profusão vertiginosa os vícios multiplicavam-se.
IV
V
No dia em que saiu de sua cidade, no trem todos puderam ver nos olhos o brilho de quem estava sendo carregado por esperança. E no dia em que ele voltou no mesmo trem puderam ver nas faces de seu cadáver que de onde ele veio carregava a si próprio. Na partida lembraram que ele tinha sobre si coragem, quando voltou tinha por bagagem a si próprio.Staub saiu crente em si para encontrar o que ele pensava ser seu destino nesta vida.Dentro daquele caixão estava o resumo de tudo.
Quando Vida Torta o encontrou na noite anterior Staub estava repetindo coisas que ele não entendeu, Staub lhe disse disse que morrer fica parecendo tão virtuoso quanto castigar um culpado, encontrando-se um fim justificado em si mesmo devido ao que ele trouxe para si. Ainda disse que sempre acreditava na existência de um muro entre a luz e a escuridão, entre a lucidez e loucura, entretanto naquela hora as coisas parecem menos maniqueístas e mais associadas ao momento e ao imediatismo. As realidades convergem tomando as mesmas direções.Em seu bilhete de despedida escreveu:
Quando Vida Torta o encontrou na noite anterior Staub estava repetindo coisas que ele não entendeu, Staub lhe disse disse que morrer fica parecendo tão virtuoso quanto castigar um culpado, encontrando-se um fim justificado em si mesmo devido ao que ele trouxe para si. Ainda disse que sempre acreditava na existência de um muro entre a luz e a escuridão, entre a lucidez e loucura, entretanto naquela hora as coisas parecem menos maniqueístas e mais associadas ao momento e ao imediatismo. As realidades convergem tomando as mesmas direções.Em seu bilhete de despedida escreveu:
Plantamos um jardim de flores hibridas e podemos ter o mais belo dos jardins. Temos as cores as formas mais queridas previamente escolhidas de acordo com o desejo pessoal, assim como Deus fez o mundo.Então tais devem morrer tomadas pela sua efêmera delicadeza e em sua impossibilidade de reproduzirem.
Já não reflito mais sobre sangue derramado e já não fico acordado pensando em crianças disformes mudas e extáticas, já não penso...nem me lembro de ter me impressionado com algo há muito tempo.Sou nada mais que um objeto desta sociedade e de mim mesmo.Há um móvel que não cabe na mobília deste pequeno quarto e está mais que todos os outros encoberto de pó e este sou eu. Nunca mais sairei deste quarto serei parte memória e mobilia.
E o senhorio cumpriu com o último desejo de Fausto Staub e naquela pensão enquanto mostrava o quarto para um novo inquilino o senhorio não esquecia-se de Fausto Staub que sempre era acrescentado ao memorial do senhorio o qual detalhava naturalmente o fim desse inquilino como se fizesse parte da mobília.
Já não reflito mais sobre sangue derramado e já não fico acordado pensando em crianças disformes mudas e extáticas, já não penso...nem me lembro de ter me impressionado com algo há muito tempo.Sou nada mais que um objeto desta sociedade e de mim mesmo.Há um móvel que não cabe na mobília deste pequeno quarto e está mais que todos os outros encoberto de pó e este sou eu. Nunca mais sairei deste quarto serei parte memória e mobilia.
E o senhorio cumpriu com o último desejo de Fausto Staub e naquela pensão enquanto mostrava o quarto para um novo inquilino o senhorio não esquecia-se de Fausto Staub que sempre era acrescentado ao memorial do senhorio o qual detalhava naturalmente o fim desse inquilino como se fizesse parte da mobília.