16 de janeiro de 2008

Ela retia-se diante da janela. Calmamente mantinha os braços em V abertos por algum tempo, depois elevava os tornozelos do chão ficando sobre a ponta dos pés. Fazia com que as mãos esticadas se encontrassem acima da cabeça onde finalmente os dedos se tocavam. Por alguns minutos repetia estes movimentos e os raios do sol espargiam sobre ela cândidas e divinas asas de anjo.
No ar começavam a misturar-se o odor úmido da brisa que vinha da janela trazendo o ar mais puro, e os perfumes que se acumularam no quarto durante a noite. Noite, madrugada e manhã encontravam-se numa maré lenta de odores antes imperceptíveis e incompreensíveis.
A luz encontrava sobre o nu do corpo esguio e voluptuoso a alma que se esticava com prazer. E ainda parecia abrigar ternamente aquela pele que desafiava já os primeiros raios do dia.
Os lábios róseos, lívidos, úmidos, lutavam contra os dourados cabelos que na brisa atiravam-se contra eles.
Voltou para cama que recebia a luz do sol e deitou. Os pelos pubianos fulvos eram caracóis de seda desgrenhados, atacados docemente pela luz de finos dedos de aurora. Dedos que adentravam entre as coxas como se desejassem desenhar uma outra seda rosa.
Calada voz de olhos que espreitam
um moribundo em seu dossel
é Lazaro que ainda aguarda Jesus.

Mrs. Pruffocck nos aguarda
para o café da manhã na rua úmida
sob o sol que cai entre velhos edifícios.

E elas cantam uma canção, já é o poente
Passamos por cada homem desta cidade
E não vimos ninguém.
A fuligem e a fumaça do trânsito
Nos encontram a cada esquina junto com os ladrões
e não tememos mal algum.

O café esfriou, nossas vozes se perderam.

Fantasmas que retornam abraçados
Naquele quarto a cama ficava rente à parede
No frigobar a cerveja quente.

Falávamos outra vez naquela hora púrpura e confusa
Que Lázaro voltou dos mortos
O café esfriou.

Mrs. Pruffocck calada olhava para a calçada
A chuva caia fina como pó , e saímos apressados
Tentando apanhar o sol se escondendo entre as velhas construções.