14 de janeiro de 2008

As mãos dispostas em forma de duas conchas rosadas. Os olhos negros fixos nas mãos repousadas sobre o colo. Sentada na beira da cama, os ruídos da chuva vinham da rua através da janela e ouvia a água que escorria pelas calhas velhas rangendo intermitentes. Estava só fazia apenas alguns minutos, bem uns vinte para falar a verdade. Já havia cumprido sua tarefa tantalica e preparava-se para vestir-se. Resolveu ficar nua, pegou um livro que ela encontrara mais cedo, e começou a ler:
Abraça-te ao vinho amargo como o fel da bile para esquecer que o dia vem quando chegam enfim as legiões da noite. Que a noite é o fim do dia, e a escuridão ofegante pulsa, busca nos cantos iluminados os últimos reflexos e as últimas mãos quentes para esfriá-las. Beija longamente este teu último dia com a língua frouxa e as salivas quentes, porque o fim virá destes dias. E não chorarás o coração que deixaste para trás, o desejo que mataste no último momento e as crianças que não te nascerão. Esqueças também, do teu pai vulto cego e o vulto da luz no teu quarto. Esqueças, amanhece corpo gélido, sem dizer um olá para brisa, ainda que ela lhe beije doce às faces úmidas de lágrimas... (Guíllen Enfermo)
O verão chuvoso parecia mais quente este ano e sentir-se mais só do que qualquer outra vez parecia muito mais normal. Nunca conseguiu fazer os sonhos atravessarem a cabeça e não seria agora que algum se realizaria. O doce nunca lhe chegaria até a boca.E também olhar o que realmente era, o que realmente acontecia, para quê?Mais um estranho viria. Mais uma hora passando em seu seio esquerdo.