28 de janeiro de 2011
O BIBLIÓFILO
A mãe pagava os estudos dele prostituindo-se lá na cidade onde ele nascera, isso nunca o incomodou. Afinal saber a origem do seu conforto não era sua prioridade e nem um pensamento que fosse sobre isso era sequer levemente agradável ,obviamente.
Todos os dias saia para caminhar depois das aulas e entrava em qualquer lugar onde estivessem ou nas bibliotecas públicas ou nas casas que visitava e observava nas prateleiras das estantes ou sobre algum móvel aqueles objetos que fascinavam seu espiríto. Escolhia um dos que via e o acariciava, em cada lombada passava suavemente os dedos, sentia a textura de cada capa e contra capa cheirava suavemente o seu interior e cuidadosamente arranhava uma ou duas páginas e então perguntava-se qual era o título , o nome, daquela coisa em suas mãos. Por vezes levava o livro contra o peito e depois esticando os braços o encarava frente a frente para ver o nome do autor como se o olhasse diretamente nos olhos. Não compreendia as sua atitudes em relação aos livros, mas compreendia que aquele ritual era quase misticismo , era libertário de alguma coisa que ainda que tentasse correr por sobre os trilhos com atenção escorregava e caia. Disparava um palavrão silencioso dentro de sua cabeça. Muitas vezes escondia os livros dentro da bolsa ou do casaco e roubava-os.Depois sozinho deleitava-se revirando as páginas e arranhando uma a uma nervosamente, calmamente, inebriosamente e depois de passar algum tempo com ele e já sem escrúpulos destruia aquele objeto em suas mãos logo depois do primeiro capítulo.
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