Parado aqui e olhando pra dentro desse fosso e o mais certo a se fazer é dar meu último passo. Aqui sozinho, no meio da cidade mais populosa do país, estou pronto. Suicídio inevitável. È só dar um passo e todos os meus desejos mais antigos se desfazem.
Minha última decisão como um dedo indicador no botão delete. Uma palavra em uma frase desaparece e outra e mais outra. Meu corpo o traço que atravessando o fosso vai apagando a frase que é minha vida e na queda cada andar é a marca de uma letra que some da minha existência.
Fazendo isto estou abrindo meus braços para o encontro que talvez salve meu ultimo lastro comigo mesmo.
Entrego minha morte diante de verdades que nunca fizeram sentido. Nesta vida tirada de uma certeza desgastada num moinho de vidros o qual não quero mais.
Desenganos que vem e vão por muitos meios e em vão.
Sendo tolos somos passíveis de viver de tolices. Todos nós somos tolos. Temos crenças indissolúveis, verdades construídas pelo mundo não por nós mesmos. Viemos de lugares genéticos desconhecidos de programações biológicas predefinidas. Uma existência sem escolhas. Em alguns momentos tentamos nos rebelar contra essa ordem tão determinista para apenas seguirmos outra, ou, outras ordens, as quais, se mesclam com a mesma ordem anteriormente definida. Em resumo, entre tudo e em cada minuto misturam-se tolos e mais tolos invisíveis para si próprios e passíveis de si próprios e suas tolices.
Olhos vítreos e fixos na direção do meu provável futuro.
Queria poder me ver, devo parecer patético, um retardado balançando-se sobre os pés olhando pro nada do fosso do elevador. Pois é, eu deveria ter escapado por uma janela e deveria estar parado num parapeito qualquer ou no topo de uma cobertura olhando para cidade que me olharia de volta, mas, imaginar alguém me olhando com pena ou torcendo para que eu pulasse me faria pensar em desistir ou talvez aumentar muito rapidamente meu desejo de pular. Bom, é óbvio que tirar a própria vida é um momento muito íntimo, apesar de que, quem o faz, acaba por dividir com muita gente o efeito de seu ato. Sempre um suicida vira atração no local. Porém não eu.Eu quero ter esses minutos finais só para mim egoisticamente. Viverei só para mim os alguns outros poucos segundos que sobrarão de sangue quente e sinapses depois de atingir o chão...