5 de agosto de 2010

          Naquela semana a chuva incessante tornava os dias sombrios e as pessoas na rua pareciam fantasmas que circulam apressados escondendo-se debaixo de suas capas de chuva, suas jaquetas, seus gorros, seus guarda-chuvas. Na verdade fantasmas cinza e sem face. Olhando da janela era assim que Helena sentia-se - um fantasma cinza que da janela observava todos os outros. Trancada dentro do seu quarto era uma personagem muda com um sorriso cético entre os lábios. Sentia o tempo nas veias correndo, sentia que o tempo passava na sua carne. Células reconstruindo-se, memórias remontando-se fazendo aumentar o peso sobre seus ombros que ganhava o nome de dias passados. Melancolizava lembranças de dias felizes e iluminados pelo sol, dias que existiram dentro dela. Para tentar alcançá-los novamente, então, fecha os olhos longamente tentando imaginar o que havia naquela rua. E subitamente se dá conta que a memória pode ser tal como o vento que passa vivo e intermitente, que leva e trás qualquer coisa, porem não as guarda .
        E, além do mais, é necessário convencer-se de que lembranças nunca passam de rosas que não tem mais olor, de lágrimas que não tem para onde correr e nem tem mais sabores. São anjos desbotados de tristeza ou felicidade, pinturas numa parede de caverna em que os significados de hoje podem e nem devem ser os que eram em seu tempo. Helena insinua respirar do passado precipitando-se sobre ele com todas as forças , o que ás vezes faz bem para as dores, ajuda a guiar-se na escuridão que vai dissipando-se logo à frente- o futuro. Mesmo que ela saiba que tudo vai acabar sendo o que é. E ainda é outono.