29 de dezembro de 2010

Sereníssima

Éramos dois vindos de lados opostos na mesma estrada. E nos encontramos numa parada qualquer. Encontramos conforto, encontramos descanso de uma viajem que até este momento de tão longa parecia que não levaria para lugar nenhum. Na estrada que não é vazia, dirigíamos sós, mesmo entre tantos outros carros, caminhões, prostituições, alguns perdidos, andarilhos, bêbados, drogados e outros  motoristas. Apenas parando em muitos lugares e por vezes conhecendo muitos outros, sem realmente parar e sem conhecer alguém.
Neste tempo e em nossos passados, mesmo quando carregamos pessoas e mais pessoas ao nosso lado, sabemos que todas ficaram onde tinham de ficar, por isso caminhamos sós. E neste ponto nos encontramos. Abastecemos de que precisávamos para seguir em frente, alimentamos uma troca, alcançamos uma satisfação que em poucas vezes ao parar alcançaríamos ou alcançaremos noutro tempo para alguém entrar ou sair da nossa companhia. E tudo é eternamente agora. O coração querendo encontrar uma estrada segura. Ir por caminhos não tão novos. E ingenuamente penso que é melhor não ter voltado para a estrada tão fria e tão rápida, mas, reaprender a caminhar com você.            

20 de outubro de 2010

Eu quero me expressar com coisas que o senso comum concorde com sua beleza e escrever como quem toma uma garapa com pastel numa feira. Trivialmente.

15 de outubro de 2010



Ele repetia as mesmas sentenças , o mesmo código transverso quando lembrava-se daquela mulher. Dizia as mesmas sentenças na procura de sentidos , porém, não via e não ouvia sentido algum em seus sentimentos. Eram sentimentos que agiram como hóspedes bem-vindos e que tornaram-se furtivos ladrões. Havia sido colhido por este que é um vento brusco no interior de sua alma.Um vento frio parecendo vertigem ou medo e chamou isso amor incondicional. Aquela vagabunda, vil prostituta - ele repetia.
Parecia-lhe impossível até que então acabou por acontecer, cedeu à um beijo que ela vendia, entretanto, ele não sabia o que estava comprando, no príncipio só compreendia a fragilidade absurda daquela situação.
As frases que trocavam nos seus vários encontros tornaram-se como fantasmas e circulavam perdidas na sua cabeça e na boca murmurante. 
Frases perdidas as quais faziam com que ele agisse como se estivesse numa surdez escura e muda, onde apenas tateava e ia repetindo para si mesmo coisas que não ouvia de verdade.



A pele branca, o ventre doce e o perfume do corpo tomando de assalto todos os sentidos entrelaçando-se em grunhidos, gemidos e convulsões nas suas memórias. Procurava por esse passado um longo tempo de olhos fechados e ao mesmo tempo eram as coisas que mais não queria perto de si.

28 de setembro de 2010

Memorabilia

I
   O senhorio relatava para os curiosos e os outros inquilinos que naquele dia como era costume todo o cômodo estava em silêncio, assim como do lado de fora no corredor parecia não haver vida, pois eram 2 da tarde e exceto pelos fins de semana, nesse horário todas as pessoas sairam para cuidar de suas vidas. O quarto trancado e o inquilino sem sair lhe chamaram a atenção, então, ele bateu na porta sem resposta. Aguardou uns minutos e voltou com a chave para abrir e abrindo a porta logo viu o inquilino, Fausto Staub, com as pernas ainda balançando sobre a cadeira tombada.
   Ouvi por alguns minutos o senhorio, falava ele calmamente que o quadro na sua frente não o assustou muito, ele já vira outros suicidas e depois de uma primeira vez o quadro deixa de ser tétrico. Entretanto desta única vez, representou-lhe uma estória que ouvira de sua avó na infância.A avó falava de um silêncio que começava pelo pó do assoalho e subia ao teto cobrindo a vida de seus moradores,falava de um silêncio negro, escuro,se é que o silêncio pode ser algo além do próprio silêncio, dizia ele.
E acrescentava com um ar pensativo : -Nunca vi um quarto tão empoeirado. 
                                II
   No dia em que Staub chegou na cidade um homem na estação indicou uma pensão que alugava quartos ali bem perto. Caminhou até lá e encontrou o senhorio logo na porta fumando um cigarro de papel feito à mão e bem fedorento. Tratou logo de perguntar se havia um quarto e o senhorio o conduziu subindo a escada e caminhando até o meio do corredor. Defronte a porta o velho tirou as chaves do bolso e abriu. Pediu para que Staub entrasse, anunciou o preço e de antemão foi catalogando de memória toda a mobília. Velho desgraçado, pensou Staub que percebeu na voz dele, o velho usava a enumeração verbal dos bens para que servisse de aviso: - Se sumir algo você paga. Segundo o senhorio constava-se: uma mesa, 10 ou 12 romances repousados numa prateleira de parede logo acima da cama que tinha sobre ela um amarelado e enorme colchão de molas, canto direito ao lado da cama havia uma cadeira estranhamente pintada de preto e sobre ela o inútil relógio que aparentava ter os ponteiros repousando caprichosa e demoradamente em cada segundo.Se quisesse poderia cozinhar, mas nunca depois das 8 da noite. Staub sentiu-se em casa,tinha bons sonhos.
   Já nos primeiros dias Staub notou que o senhorio observava sorrateiramente cada quarto olhando pela fechadura em horários específicos. O velho era um voyeur desgraçadamente onanista. E lá pelas nove da noite quase todos os dias sentia o cheiro forte de fumo e suor do velho entrando por debaixo da porta. De vez em quando ia até lá e mexia na tranca para espantar a curiosidade dele. 
III
   Após alguns meses trabalhava todos os dias num sebo, o que lhe garantia o aluguel, a comida  e  poder ler de graça. Fausto Staub queria ser escritor, ganhar a vida assim, era o que ele dizia.Para o senhorio o senhor Staub realmente era apenas um homem calado e pontual aos pagamentos.
   Staub em todas as horas vagas escrevia. Depois todo o tempo. Tornou seu desejo uma obssessão. Passou a ficar ou debruçado dia após dia sobre uma pilha de papéis tentando com a caneta nas mãos manufaturar um papel para si, o qual não importava o esforço não vinha, não vingava.Nunca deixava os dias de folga para descansar. Com o tempo passando vagaroso, depois de um ano, cansou de tudo e durante a noite, depois do trabalho, começou a frequentar um inferninho, como dizia o senhorio. No início como todo mundo não queria deixar-se levar e aparecer por lá todos os dias.Mas com as visitas repetindo-se logo ficou companheiro do leão de chacára chamado Vida Torta que na maioria do tempo escondia-se num quartinho com beliche nos fundos do bordel, só aparecendo quando o lugar enchia ou uma briga o tirava do sossego habitual e fazia que com seu tamanho descomunal e aparência grotesca pusesse um ou dois porta para fora.Dessa amizade com o Vida Torta suas noites começaram a ser marcadas pelo o que lhe bebia e fumava. Como demônios em profusão vertiginosa os vícios multiplicavam-se.

IV
   Ali deixou os seus últimos bons sonhos.
                           V
No dia em que saiu de sua cidade, no trem todos puderam ver nos olhos o brilho de quem estava sendo carregado por esperança. E no dia em que ele voltou no mesmo trem puderam ver nas faces de seu cadáver que de onde ele veio carregava a si próprio. Na partida lembraram que ele tinha sobre si coragem, quando voltou tinha por bagagem a si próprio.Staub saiu crente em si para encontrar o que ele pensava ser seu destino nesta vida.Dentro daquele caixão estava o resumo de tudo.
Quando Vida Torta o encontrou na noite anterior Staub estava repetindo coisas que ele não entendeu, Staub lhe disse disse que morrer fica parecendo tão virtuoso quanto castigar um culpado, encontrando-se um fim justificado em si mesmo devido ao que ele trouxe para si. Ainda disse que sempre acreditava na existência de um muro entre a luz e a escuridão, entre a lucidez e loucura, entretanto naquela hora as coisas parecem menos maniqueístas e mais associadas ao momento e ao imediatismo. As realidades convergem tomando as mesmas direções.Em seu bilhete de despedida escreveu:
Plantamos um jardim de flores hibridas e podemos ter o mais belo dos jardins. Temos as cores as formas mais queridas previamente escolhidas de acordo com o desejo pessoal, assim como Deus fez o mundo.Então tais devem morrer tomadas pela sua efêmera delicadeza e em sua impossibilidade de reproduzirem.
Já não reflito mais sobre sangue derramado e já não fico acordado pensando em crianças disformes mudas e extáticas, já não penso...nem me lembro de ter me impressionado com algo há muito tempo.Sou nada mais que um objeto desta sociedade e de mim mesmo.Há um móvel que não cabe na mobília deste pequeno quarto e está mais que todos os outros encoberto de pó e este sou eu. Nunca mais sairei deste quarto serei parte memória e mobilia.

E o senhorio cumpriu com o último desejo de Fausto Staub e naquela pensão enquanto mostrava o quarto para um novo inquilino o senhorio não esquecia-se de Fausto Staub que sempre era acrescentado ao memorial do senhorio o qual detalhava naturalmente o fim desse inquilino como se fizesse parte da mobília.

20 de agosto de 2010

Ela chegou atrasada . E isto não era normal para ela até agora. O sorriso nos lábios dela não era normal. O seu beijo estava rijo e descompassado. Foram então tomar café. Sentaram-se no lugar que parecia mais acolhedor. Ela estava calada e ele não entendia bem porque, entretanto não quis perguntar logo de cara o que estava acontecendo, talvez ele nem quereria saber. Pensou um pouco. O relacionamento ia bem desde o começo há 3 ou 4 meses, eles se gostavam, era o que ele imaginava. Então, ela, após um inspiração um pouco mais profunda, na sua segunda ou terceira frase depois de dizer - Olá e tudo bem?- disparou contra ele: -Estou grávida, e é de você...
- Então, eu quero essa criança...poxa, vai ser meu filho...
- Você é egoista.
- Nãoo,  só acho que...
- Você não tem que achar coisa alguma. Eu não quero.
- Eu acredito em ter...
- Acredita em nada,porra nenhuma. Não quero essa merda pra mim. E nem venha com algum papo hipócrita e babaca.
- Eu sabia, nunca ia dar certo mesmo, cê é mimada, babaca.
- Olha meu, não te devo nada e você não me deve nada. No máximo deve um adeus. Fica asssim mesmo eu me viro.
- Então fico devendo.
Saiu. A direção não importava, muito menos onde. Foi caminhar sem rumo.
Tavares, era o apelido de escola e como o chamavam assim em todo lugar, estava caminhando pelas vielas do Passeio Público chutando areia com o bico do sapato , levando as mãos no bolso olhando vezes para baixo outra para cima. Céu azul, manhã de astral.O suor ensopava-lhe a camisa branca. Engraçado é que ele não gostava de camisa branca, entretanto naquele dia pareceu-lhe especial. Uma camisa branca de algodão.Caminhava e estava sol, mas não era o calor que o fazia suar.Na verdade a temperatura era amena naquele dia no máximo uns 22 ou 23 graus e soprava uma brisa leve constante. O sangue é que lhe fervia, os pensamentos, as lembranças.
Ela ficou e chorou um pouco antes de pagar a conta e sair.
Estava difícil carregar seu corpo enquanto caminhava, respirar era cansativo e confuso. Estava procurando uma saída,e sentia-se uma bola na mesa de bilhar,estava em um labirinto que movia-se constantemente.
Acordar em estado de semiconsciência , eis um belo dom, o corpo parece estar em estado de coma. Os sonhos prolongam-se transpondo o ponto limite com a realidade, as imagens dos sonhos e pesadelos invadem o quarto. E o corpo está e não está lá, entre pedaços de lembranças, flutuando no leito das fantasias sem poder ser tocado nem tocar, sobrenadando na própria cama. De Maistre sabia disto. Aparições de fantasmas , vultos, seres imaginários, todos lá, vivos diante de olhos que fechados parecem abertos , e muitas vezes estão abertos e arregalados, porém, voltam-se para o interior , enxergam para dentro,  num rumo verso e reverso isto porque o que está dentro da mente está fora e o que parece estar fora diante do corpo são coisas que estão somente dentro do inconsciente. Portanto, não existem que no planos das idéias. Neste momento, raro, diga-se de passsagem, que pode ser testemunhado e por vezes recriado sem a vertigem e o estranhamento do fato natural com o uso de narcóticos e medicamentos,que é claro, retiram deste fato o frescor natural o espanto e o fôlego acelerado. Este momento de revêrie, ensueño, quase sonho é fato raro são segundos longos e distantes da frieza que é o plano da realidade e de mergulho assustador na irrealidade mais real da psique.

18 de agosto de 2010

Dama entre camélias

A noite chega e encobre com sua escuridão o cadáver do dia, suspiro algo perdido... 
A Morte, dama doce, no seu gentil vagar entre sombras e estrelas, passeia entre camélias, dizendo calmamente  ao vento que leva e trás e sábio nada guarda:
- Se fores traga-me flores.  

10 de agosto de 2010

Quase sem querer




Ele falou tranquilamente num tom doce:
- Já vou. Tenho de acordar cedo...
O ambiente tornou-se silencioso. A frase ficou oscilante no ar , vazia de sentidos.
Sentiu-se atoleimado e enrubecerão as faces. Como solução levantou rápido e começou a vestir-se.
Ela falou uma frase qualquer que ele mais tarde não sabia se não ouviu ou fingiu que não ouviu. Naquele momento os segundos iam acumulando-se e pareciam horas. Quando finalmente livrou-se de vestir a roupa e por fim calçou os sapatos, levantou, enfiou as mãos no bolso e jogou o dinheiro que devia e mais algum.
Ao chegar na porta, ainda  antes de sair, observou a cama desarrumada e o sorriso frio da prostituta que já ia levantando-se e pegando o dinheiro.

Imagem by Andrew Wyeth. Helga.1978.

5 de agosto de 2010

          Naquela semana a chuva incessante tornava os dias sombrios e as pessoas na rua pareciam fantasmas que circulam apressados escondendo-se debaixo de suas capas de chuva, suas jaquetas, seus gorros, seus guarda-chuvas. Na verdade fantasmas cinza e sem face. Olhando da janela era assim que Helena sentia-se - um fantasma cinza que da janela observava todos os outros. Trancada dentro do seu quarto era uma personagem muda com um sorriso cético entre os lábios. Sentia o tempo nas veias correndo, sentia que o tempo passava na sua carne. Células reconstruindo-se, memórias remontando-se fazendo aumentar o peso sobre seus ombros que ganhava o nome de dias passados. Melancolizava lembranças de dias felizes e iluminados pelo sol, dias que existiram dentro dela. Para tentar alcançá-los novamente, então, fecha os olhos longamente tentando imaginar o que havia naquela rua. E subitamente se dá conta que a memória pode ser tal como o vento que passa vivo e intermitente, que leva e trás qualquer coisa, porem não as guarda .
        E, além do mais, é necessário convencer-se de que lembranças nunca passam de rosas que não tem mais olor, de lágrimas que não tem para onde correr e nem tem mais sabores. São anjos desbotados de tristeza ou felicidade, pinturas numa parede de caverna em que os significados de hoje podem e nem devem ser os que eram em seu tempo. Helena insinua respirar do passado precipitando-se sobre ele com todas as forças , o que ás vezes faz bem para as dores, ajuda a guiar-se na escuridão que vai dissipando-se logo à frente- o futuro. Mesmo que ela saiba que tudo vai acabar sendo o que é. E ainda é outono.

22 de julho de 2010

Abrindo o portão azul de casa ele rompeu em passos macios sobre o gramado o silêncio do orvalho e o seu próprio silêncio. 
Flutuava mansamente o cheiro do asfalto ainda molhado da noite que serenou. 
Os bueiros assopravam nevoeiros de vapor para cima e na luz amarela do sol que surgia essa a fumaça ia e parecendo confusa brilhava . As sombras ganham força sobre a calçada e sobre o gramado ao lado dos passos.
Foi descendo a rua para chegar até um outro portão. Os pensamentos fugidios e a imagem querendo sair da própria boca. Boca que vinha já tomada pelo coração que insistente disparava, como a querer sair correndo na frente. 
Repentinamente se deu conta : Meu Deus, já fez um mês. 
Ganhava força o medo, os pés então temiam o chão a cada espaço tomado.
Acordei e sai.
E esta voz maldita na minha frente repetindo: - Sinto muito, ela não mora mais aqui.

21 de julho de 2010

Mulher à mesa de café, Tambourin,1887- Van Gogh.













Ela esperava que ele tivesse uma atitude e ele refusava no momento certo , ela não diria nada , afinal como ela dizia: homem deve atitude de homem. O estranho é que ele não era tímido e também não era ousado.
Que cara irritante, dizia ela consigo.Pra que esperar. Ainda assim ela esperava. E sentia-se entre decepcionada e lisonjeada, muito mais este segundo sem perder para o primeiro.
Acendia mais um cigarro . Bebia mais um café,pensava
mais uma besteira qualquer...

27 de junho de 2010

Ando meio...


Enquanto estava vindo do aeroporto, dentro do táxi, pensava que talvez desta vez ao abrir a porta de casa iria encontrar aquele sentimento antigo , aquela alegria boba de quando estamos amando e estar apaixonado não é uma frase, ou palavras desconexas expelidas ao vento. Nada veio. Era tudo um fio pequeno de remorso pelo constante sexo fora do casamento.
Só as malas da viagem com roupa suja e o presente duty-free de outras viagens.Beijo, olá e abraço. Banho e sexo, banho. Nada mais.Nada mais para dar. Além do estado tedioso, spleen,que na verdade apenas demarcava aquela sua passagem insignificante pela vida. Meia idade , meio sonhador, meio careca, meio gordo ,meia ereção, classe média . O protótipo de um feliz suicida pensava ela quando deitou.

26 de maio de 2010

Eu senti que nada poderia ser diferente, ele não voltaria. Isto era fácil de entender olhando para mim no espelho. Estas rugas como não notei que estavam aqui, Ah!Como estive relaxada.Um casamento, uma vida inteira em tão pouco tempo, perdida.Como pude me calar em si mesma, estive ensimesmada, estive longe de ser quem eu sou por um período que agora me faz falta. São as mãos que estão enrugando , os olhos que estão ficando profundos, os peitos de macios para murchos.Ainda bem que ele foi embora, ou eu pus para fora , não sei ao certo, e pouco importará. Sozinha talvez eu possa, sendo a mulher que deixei de ser, eu encontre uma vida nova e mais minha, assim como estou agora de frente com este espelho.Uma vida para refletir quem eu sou e quem fui e quem quero ser.
Ainda bem que ele saiu de casa, ainda bem que ele se foi.Sem voltar.

10 de maio de 2010

Enquanto ela falava eu imaginava como deveria ser ela , como poder sentir-se desamarrado da possibilidade de morrer naquele dia. Já fui assim, eu disse.Ela esfumaçou outra pedra daquelas 10 ou 12.Voce não quer?Pra quê?Beijava-lhe a parte de dentro das coxas e conseguia tirar-lhe um ou outro espasmo. Estava me divertindo.Acabou de fumar e me agarrava tão forte de modo que eu não podia sentir se era para proteger-se ou ser protegida, é só uma pira dizia ela.

2 de maio de 2010

De inverno em inverno aquela mulher caminhava à procura de se aquecer , mas, a cada homem com quem ela transava, a cada novo estranho na cama o frio aumentava. E dobrando outra esquina outro encontro sem que o marido soubesse.Depois em casa os olhos marejados, distantes, e frases dispostas a comunicar o nada.Ele já notara o frio que emanava dela,e não se importou muito ,depois de um certo tempo de casados o silêncio fazia parte do amor que ele sentia por ela, introspectivo pensava que ela também o ficara.
E quando um dia um daqueles casos se tornou mais quente que o normal , ele estranhou os sorrisos e o estado nervoso dela em casa, mas, depois de um certo tempo de casados é normal que ambos mudem de tempos em tempos, são os hormônios, disse ela.

27 de abril de 2010

Para os que estão em casa





Os meus órgãos, meus genes, cabelos, os dedos,as unhas, os pelos,  minha bondade , minha caridade, está tudo à míngua.
Pisam cinzas de pétalas e seguem um descompasso constante, porque assim como minha singularíssima pessoa: não me servem.
Estes meus olhos tão negros e escuros não me servem: Afinal não posso ver Deus.
Esta boca ainda me é mais inútil: não consegue articular nem mentiras nem verdades absolutas.
E dentro do meu íntimo, tão rudimentar, carrego chagas fendidas na carne da alma e sendo corajoso estando aqui minha vida duvida que exista uma alma: e de que me serve isto?

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23 de abril de 2010

Em meu infantil e egocentrico sonho, nunca perguntei a única pergunta que tinha de ser feita: - E ela,teria escolhas para fazer? Dentro do caos ao qual me lancei questionar seria ensurdecedor e emudecedor de um amor que nasceu sem culpas, porém, era ele culpado por tudo.

Souhaiter Des Choses Impossibles

Foi o leve sussurar de seu rosto, naqueles momentos que com a ponta de meus dedos eu espantava os cabelos dos seus lábios, que suavemente beijou meus pensamentos.
Assim você trouxe para mim novos desejos e tive de escolher entre o homem que eu costumava ser e o homem que eu desejaria ser.E nesta frágil esperança pensei poder desejar coisas impossíveis. Mas, agora, vejo friamente que todos os meus desejos estão muito longe...

16 de abril de 2010

Personalstorm

I


Ando devagar, mas, ainda tenho muita pressa, para mim tudo ainda é impreciso e necessito de compor uma nova história e talvez ser feliz. Ainda não cheguei a compreender que não há nada mais preciso que o tempo, o qual, em si, é uma receita. E nos foi dado tal qual uma manipulação homeopatica que invariavelmente deve ser executada com paciência e para ser usada em pequenas doses, que são horas e dias. Assim para haver seu efeito deve ser esperado um longo período, pois uma cura lenta torna-se efetiva .

II
Ainda tento compreender as coisas que dizemos sem sentido e aceitar esse caminho sempre na mesma direção á frente e á frente nada mais.
III
As coisas que tento alcançar não são mais que sonhos e as realizações não mais que pequenos desejos que empilharam-se para formar algo que não chega a me causar algum orgulho. Gosto de saber que quando sento no pé da minha cama me vem aos olhos muito mais lágrimas do que sorrisos à boca , porque ainda assim me sinto feliz e a grande aventura é continuar.

13 de abril de 2010

Abraçava aquele homem a quem jurou amor, beijou-lhe o rosto a boca, os olhos. Respirou o seu perfume, confortou-se com seu calor por um instante.Todos os dias tendo de olhar-lhe nos olhos esperando um motivo para odiar e o motivo não vinha e o amor não queria passar.

5 de abril de 2010

Agora sem você tudo que eu mais gosto perdeu o sabor, só tenho coisas inodoras, insípidas e incolores.As horas e os dias se alongam intermináveis .O meu peito fragmenta-se quando nele a dor materializa que a esperança é sofrer. Sofrer a espera de talvez você aparecer,sendo isto o que eu não quero.
E toda hora me deparo que estou a viver sentindo que te quero mais que a mim mesmo; é quase desespero.
Dizem que o tempo me trará respostas, as quais, friamente penso, serão justificativas brandas e insossas,tanto quanto meus novos olhos no espelho.Penso que eu e você não saberemos se fizemos algo certo além de causar este encontro de almas, que outrora foram e ainda continuarão a ser como gêmeas,iguais sim, entretanto com vidas separadas no útero de sua confusa geração.Pois temos que indubitavelmente de sofrer as razões pelas quais nos deixamos , sofrer as dores da escolha: ser Sísifo ou ser Tântalo, sermos ambos ou cada um de nós escolher por ser um deles.

Sobre Sísifo e Tantalo consulte:
pt.wikipedia.org/wiki/T%C3%A2ntalo
pt.wikipedia.org/wiki/Sísifo

4 de abril de 2010

Maturação

Com os olhos fixos em si mesmo pelo espelho dizia em silêncio:
- Amor, depois de amassar,processar e envelhecer essa uva suculenta roubaste-me o vinho e só me restou a borra e o vinagre.

1 de abril de 2010

Abre a janela , põe a a cabeça pra fora, cinza, cinza, fecha a cortina.Olha no espelho e repete o roteiro...

31 de março de 2010

Amputação

Essencialmente mantenho o que posso: Fragmentos e mais fragmentos de uma peça de homem.

25 de março de 2010

Significados significantes

Assim que ouviu a voz dela tremeu, olhou nas duas direções do corredor e apesar de sentir dentro dos ouvidos ainda o som do seu nome,era apenas um eco de coisas que já haviam passado. Apenas a imbricação de imagem e conceito. Sem saber, ainda guardava fortemente as imagens acústicas que mantinham-se escondidas na sua memória, porque naquele vazio do corredor somente viviam signos e significados que já haviam morrido num dia de sol e calor moderado.

22 de março de 2010

Nihilismo

Não adianta: eu não nasci pra seguir, nem pra ser seguido.Meus disfarces não escondem o que eu penso e o que eu penso cabe numa mala pequena. O que eu tenho de bom é descartável e o que tenho de pior é desprezível. Luto para manter o meu disfarce e cada vez é mais difícil manter meu personagem neste teatro vazio, para que assim não possa deixar tão claro o que eu sou: quase nada.

19 de março de 2010

Descuido

Abri meu coração com sinceridade , forcei-me a ser gentil, esperei acontecerem coisas boas. Desculpei pela primeira vez na vida erros indesculpáveis. Portei-me como bobo, fiz tudo por amor e sem culpas. Deixei de esperar que me dessem algo em troca do que eu sentia, deixei até que levasse um pouco da minha vida.E fui por esse caminho sem medo algum, entretanto, no caminho encontrei alguém dissimulado, responsável apenas pelos próprios desejos querendo , querendo e dando somente o que lhe convinha para receber mais em troca.E agora estou confuso, cansado tentando voltar, mas, sem um caminho.

14 de fevereiro de 2010

Capuccino

Conhecia este homem tal qual conheço a mim mesmo, por isto, e por mais nada, resolvi matá-lo.Confesso que olhá-lo e me enxergar tornou-me amargo comigo mesmo, então,sem um longo planejamento, resoluto esperei por ele , logo pela manhã e quando chegou diante do espelho atirei duas , três vezes; assim sem sentimento ou ressentimento.Tombou aos meus pés e o sangue jorrava da jugular que um dos tiros havia pego e transfixado. Satisfeito pela conclusão fui tomar um capuccino.Entretanto quando acabei com o café, a culpa, a maldita culpa. Parecia que uma parte minha tinha escorrido com aquele sangue, parecia que havia alguma fé em meu coração e senti que havia deixado algo junto àquele corpo.Ou que satisfazer meus sentidos confrontou minha razão. Entretanto matei e tenho muitas culpas que vão além de matar.